9.1Por que o linfonodo mudou de papel
O estado linfonodal segue como um dos fatores prognósticos mais fortes (capítulo 8). O que mudou foi o manejo: ensaios randomizados mostraram que, em pacientes cN0, o sentinela negativo dispensa o esvaziamento, e que mesmo 1–2 sentinelas positivos podem ser tratados com radioterapia ou com acompanhamento3,4,6,8. Para o patologista, isso desloca a atenção do total de linfonodos para a medida exata do maior foco e para a separação entre células isoladas, micro e macrometástase.
Sentinela negativo: esvaziar não acrescenta benefício
Risco relativo do sentinela isolado comparado ao esvaziamento axilar, 4 ensaios randomizados, pN0.
Adaptado de Petrelli et al., 20123. Barras à direita de 1 indicariam pior desfecho com o sentinela; nenhum intervalo excluiu 1.
Sentinela positivo: abordagens menos extensas têm desfechos semelhantes
Proporção livre de evento em ensaios randomizados (cN0, T1–T3).
SENOMAC6, OTOASOR5 e SOUND7. No SOUND a comparação é sentinela vs. nenhuma cirurgia axilar, em tumores ≤ 2 cm com ultrassom normal.
Recidiva axilar é rara com qualquer opção
Incidência acumulada de recidiva axilar.
Ensaios que orientam a conduta
| Ensaio | População | Comparação | Resultado principal |
|---|---|---|---|
| AMAROS (10 anos) | cT1–2, sentinela positivo | Esvaziamento vs. radioterapia axilar | Recidiva axilar 0,93% vs. 1,82%; sem diferença em sobrevida; menos linfedema com radioterapia4 |
| OTOASOR (8 anos) | cT ≤ 3 cm, cN0, pN1(sn) | Esvaziamento vs. irradiação nodal | Recidiva axilar 2,0% vs. 1,7%; não inferioridade5 |
| SENOMAC | cT1–3 cN0, 1–2 macrometástases no sentinela | Esvaziamento vs. sentinela isolado (com radioterapia em ~90%) | Sobrevida livre de recidiva em 5 anos 88,7% vs. 89,7%6 |
| SOUND | ≤ 2 cm, ultrassom axilar normal | Sentinela vs. nenhuma cirurgia axilar | Sobrevida livre de metástase em 5 anos 97,7% vs. 98,0%7 |
Metanálise de 26 estudos confirmou recidiva axilar, sobrevida livre de doença e sobrevida global semelhantes sem esvaziamento, com menos eventos adversos8.
9.2Exame macroscópico e processamento
Na bancada
- Identificar cada sentinela separadamente; tinta diferencial ajuda a não contar o mesmo linfonodo duas vezes1.
- Fatias de 2 mm de espessura; incluir todo o tecido do sentinela.
- Linfonodos intramamários entram na contagem do nível I; focos de carcinoma na gordura axilar, sem estrutura de linfonodo, contam como linfonodos metastáticos1.
O que não é rotina
- Citoqueratina em linfonodos sem carcinoma no HE não é feita de rotina, prática apoiada pelos estudos NSABP B-32 e ACOSOG Z00101.
- A citoqueratina pode esclarecer achados incertos no HE1, como células isoladas de carcinoma lobular que imitam histiócitos ou focos residuais em fibrose após neoadjuvância.
- Metástase só detectada por citoqueratina é classificada pelo tamanho, como qualquer outra.
9.3Células isoladas, micro e macrometástase
Três categorias definidas pelo tamanho
Critérios AJCC 8ª edição / UICC TNM8 adotados pelo ICCR.
Como medir
- Medir o maior foco contíguo de células tumorais; focos separados não se somam1.
- Agrupamentos próximos, mas separados por estroma, contam como focos distintos; considerar a contagem de células quando a medida for ambígua.
- Relatar o tamanho da maior metástase em qualquer linfonodo, mesmo quando não for no sentinela.
- Linfonodos apenas com células isoladas não entram no número de linfonodos positivos para o pN.
9.4Categorias pN
| Categoria | Critério (AJCC 8ª edição) |
|---|---|
| pN0 | Sem metástase ou apenas células tumorais isoladas |
| pN0(i+) | Apenas células isoladas (≤ 0,2 mm ou ≤ 200 células) |
| pN0(mol+) | Achado molecular positivo (RT-PCR) sem células isoladas detectadas |
| pN1mi | Micrometástases (cerca de 200 células, > 0,2 mm, nenhuma > 2 mm) |
| pN1a | 1 a 3 linfonodos axilares, ao menos uma metástase > 2 mm |
| pN1b / pN1c | Mamária interna ipsilateral em sentinela (excluídas células isoladas) / pN1a e pN1b |
| pN2a | 4 a 9 linfonodos axilares (ao menos um > 2 mm) |
| pN2b | Mamária interna clinicamente detectada, com axila patologicamente negativa |
| pN3a | 10 ou mais linfonodos axilares (ao menos um > 2 mm) ou infraclaviculares |
| pN3b / pN3c | Axila positiva com mamária interna positiva / supraclaviculares ipsilaterais |
Sufixos e modificadores
- (sn): estadiamento baseado no sentinela, quando foram examinados menos de 6 linfonodos (com ao menos um sentinela)1.
- (f): metástase confirmada apenas por punção ou core biopsy, sem excisão.
- y: após terapia neoadjuvante (seção 9.6 e capítulo 18).
9.5Exame intraoperatório
O exame intraoperatório evita uma segunda cirurgia quando o esvaziamento for indicado. Com a redução das indicações de esvaziamento, seu uso caiu: depois do Z0011, o esvaziamento em pacientes elegíveis com 1–2 sentinelas positivos passou de 78% para 21%, e a congelação, de 95% para 66%; omitir a congelação reduziu o custo médio do exame anatomopatológico de US$ 4.319 para US$ 2.03613.
Sensibilidade dos métodos intraoperatórios
Comparados ao exame definitivo em parafina; células isoladas consideradas negativas.
Fillion13, Pathmanathan11, Pétursson10, Lim9 e Cutress12. Lim: sensibilidade apenas para macrometástases.
Especificidade alta em todos
Imprint 99,8%10, congelação em múltiplos níveis 99,3%9. Um resultado positivo é confiável; um negativo não exclui metástase, sobretudo pequena. O OSNA analisa o linfonodo inteiro, eliminando o viés de amostragem, e teve 96% de concordância com a histologia de fatias alternadas1. A sensibilidade do imprint aumentou com o tamanho do tumor primário e não diferiu entre carcinoma ductal e lobular10.
Efeito do Z0011 na prática
Pacientes elegíveis com 1–2 sentinelas positivos.
Fillion et al., 201713.
9.6A axila após neoadjuvância
O sentinela isolado após quimioterapia em pacientes inicialmente cN+ tem taxa de falso-negativo de cerca de 13%. A retirada do linfonodo biopsiado e marcado antes do tratamento reduz essa taxa14.
Taxa de falso-negativo das técnicas de estadiamento axilar após quimioterapia
Comparadas ao esvaziamento axilar completo, pacientes cN+.
Swarnkar et al., 202114. O linfonodo marcado foi localizado e retirado em 90% dos casos.
Para o patologista
- Identificar e relatar o linfonodo marcado (clipe ou semente) e se ele contém tumor ou alterações de resposta.
- Citoqueratina é útil para avaliar focos residuais em meio a fibrose.
- Qualquer tumor residual, inclusive células isoladas, exclui resposta patológica completa: ypN0(i+) não é pCR (capítulo 18).
Medida do foco residual
- AJCC: usar apenas o maior foco contíguo de carcinoma residual, sem incluir a fibrose entre focos1.
- Reino Unido, Irlanda, Japão e Australásia incluem a fibrose entre focos viáveis1.
- Declarar o método usado. O tamanho da maior metástase entra no cálculo do RCB.
- Relatar o efeito do tratamento (fibrose, hialinização, histiócitos espumosos) separadamente em linfonodos com e sem carcinoma residual1.
9.7Roteiro do laudo
Elementos do conjunto de dados ICCR para linfonodos1 e do AJCC 8ª edição2.
| Número de sentinelas examinados essencial | Separar sentinelas de não sentinelas. |
| Número de não sentinelas examinados essencial | Incluir intramamários e focos na gordura axilar no nível I. |
| Número de linfonodos com metástase (> 0,2 mm) essencial | Separado por sentinela e não sentinela. |
| Número de linfonodos só com células isoladas essencial | Não entram na contagem do pN. |
| Tamanho da maior metástase essencial | Em mm, maior foco contíguo; método declarado após neoadjuvância. |
| Extensão extranodal essencial | Não identificada / presente / não determinável. |
| Estado pós-neoadjuvância essencial | Efeito do tratamento nos linfonodos com e sem tumor residual. |
| Linfonodo marcado essencial | Identificado, com ou sem tumor, quando houver clipe. |
| Categoria pN (AJCC 8ª / TNM8) essencial | Com (sn), (i+), (f) e prefixo y quando aplicáveis. |
| Método de detecção recomendado | HE, citoqueratina ou método molecular. |
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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 9.
