18.1Resposta patológica completa
A definição adotada pelo ICCR e pelos ensaios é ausência de carcinoma invasivo residual na mama e nos linfonodos: ypT0 ypN0 ou ypTis ypN0. O carcinoma in situ residual não exclui pCR, mas deve ser relatado1,2.
É pCR
- ypT0 ypN0: nenhum carcinoma residual.
- ypTis ypN0: apenas carcinoma in situ residual.
- Linfonodos com fibrose e sinais de resposta, sem tumor viável.
A definição importa
Razão de riscos para sobrevida livre de evento com pCR, por definição.
Cortazar et al., 2014 (CTNeoBC)3. Quanto menor, maior o benefício; ignorar a axila enfraquece a associação.
O valor prognóstico da pCR depende do subtipo
Razão de riscos para sobrevida livre de evento.
Cortazar et al., 20143. Associação mais fraca nos tumores RH+ de baixo grau.
18.2Macroscopia e amostragem
Antes de cortar
- A requisição deve informar que houve terapia neoadjuvante; sem isso, a peça pode ser subamostrada1.
- Informações pré-tratamento: tamanho e localização na imagem, clipe, tipo, grau, RE, RP, HER2, Ki-67 e biópsia axilar.
- Localizar o clipe (radiografia da peça) e o sítio tumoral pré-tratamento.
Amostragem dirigida
- Amostragem sistemática guiada pela correlação radiológico-patológica é preferível à inclusão exaustiva1,2.
- Registrar imagem das fatias (radiografia, foto ou desenho) e usá-la como mapa dos blocos1.
- Amostrar toda a área ocupada pelo tumor na imagem pré-tratamento, não só a lesão visível: a resposta costuma ser em ilhas dispersas.
- Até 25 blocos, com 5 cobrindo a maior dimensão, costumam bastar para documentar pCR1.
Leito tumoral não encontrado
Se a área do clipe ou o leito tumoral microscópico (fibrose frouxa, vasos proeminentes, histiócitos, hemossiderina, reação ao clipe) não estiverem nas lâminas, reexaminar a peça com a imagem e incluir novos blocos antes de concluir por pCR1.
18.3Duas medidas do tumor residual
Mesmo leito, duas medidas com finalidades diferentes
Ambas são elementos essenciais no conjunto ICCR.
Baseado em Bossuyt et al., 20241.
Na mama
- ypT: maior foco contíguo, sem fibrose entre os focos, ao milímetro1.
- RCB: d1 × d2 da área com carcinoma residual, incluindo a fibrose intercalada.
- Focos satélites do carcinoma lobular não entram no tamanho TNM; o crescimento ao longo do tecido fibroso, geralmente sim1.
- Necrose e mucina sem células viáveis adjacentes não são medidas.
No linfonodo
- ypN: maior depósito contíguo de células tumorais, sem fibrose; define micro vs. macrometástase1,6.
- RCB: extensão da maior metástase, incluindo fibrose intercalada.
- Para o RCB, contar também os linfonodos com micrometástase e células isoladas; o número pode diferir do usado no ypN1.
- Relatar efeito do tratamento em linfonodos com e sem tumor residual (capítulo 9).
- Linfonodo marcado antes do tratamento: identificar e relatar14.
18.4Residual Cancer Burden (RCB)
O RCB é o método preferido para quantificar a doença residual2 e é elemento essencial quando a neoadjuvância incluiu quimioterapia1. Combina o leito residual (d1, d2), a celularidade do câncer e a fração in situ com o número de linfonodos positivos e o tamanho da maior metástase.
Fórmula
finv = (1 − %CIS/100) × (%CA/100)
dprim = √(d1 × d2)
RCB = 1,4 × (finv × dprim)0,17 + [4 × (1 − 0,75LN) × dmet]0,17
Classes: RCB-0 = 0 (pCR) · RCB-I > 0 a 1,36 · RCB-II > 1,36 a 3,28 · RCB-III > 3,284. %CA é a celularidade média do câncer (invasivo + in situ) no leito; %CIS é a parte desse câncer que é in situ.
Calculadora do RCB
Fórmula de Symmans et al., 2007. Uso didático: confira o resultado na calculadora oficial do MD Anderson Cancer Center antes de laudar.
Sobrevida livre de evento por classe de RCB
Estimativas de Kaplan-Meier publicadas aos 3, 5 e 10 anos; 5.161 pacientes de 12 coortes.
Reproduzido dos valores de Yau et al., 20225, figura 2C. Os pontos são as estimativas publicadas, ligados por segmentos retos; não é a curva completa.
Na série original
RCB contínuo: risco por unidade, por subtipo
Razão de riscos ajustada para evento.
Yau et al., 20225, tabela 2.
Distribuição das classes de RCB por subtipo
Porcentagem de pacientes em cada classe.
Yau et al., 20225, tabela 1.
18.5Padrões de resposta e armadilhas
Quimioterapia vs. hormonioterapia
Após 3 meses de letrozol, 31 de 53 tumores (58%) tinham cicatriz central, contra 2 de 50 (4%) após quimioterapia; a quimioterapia produziu mais respostas completas e padrão de células dispersas7. Na resposta endócrina, a celularidade cai no centro e o tumor viável fica na periferia.
Mudança do grau após quimioterapia neoadjuvante
320 casos com grau pré e pós-tratamento.
Zombori et al., 202410.
Carcinoma intralinfático residual
- Carcinoma residual apenas em vasos linfáticos ocorreu em 4% de 146 pacientes; quase todas tinham linfonodos positivos8.
- Óbito em 55% das pacientes com padrão intralinfático puro ou predominante, contra 13% das demais8.
- Em série posterior (1,5% dos casos consecutivos), o desfecho foi melhor, mas houve óbitos em pacientes linfonodo-negativas: o padrão não deve ser classificado como pCR9.
- D2-40 marca bem o endotélio linfático no tecido tratado; atenção à marcação de células mioepiteliais (capítulo 7)8.
Biomarcadores após o tratamento
RE, RP e HER2 devem ser feitos na biópsia pré-tratamento. A repetição rotineira no tumor residual não é recomendada; pode ser considerada quando há doença residual abundante e é indicada quando a morfologia sugere subtipo diferente do da biópsia. Mudança do RE ocorre em 13–18% dos casos em metanálise, nos dois sentidos1,2. Tumores RE-baixo (1–10%) tiveram mais pCR que os RE > 10%, mas prognóstico semelhante ao dos RE-negativos13.
18.6Por que o laudo decide o tratamento
Doença invasiva residual, na mama ou na axila, é hoje o critério de entrada para terapias adjuvantes intensificadas. Um laudo que perde um foco residual, ou que chama de pCR um ypN0(i+), retira a paciente desses tratamentos.
Terapia adjuvante guiada pela doença residual
Proporção livre de evento nos ensaios que incluíram apenas pacientes sem pCR.
KATHERINE (HER2+, T-DM1 vs. trastuzumabe)11 e CREATE-X (HER2−, capecitabina vs. controle)12.
18.7Roteiro do laudo
Elementos do conjunto de dados ICCR para o contexto neoadjuvante1, com as recomendações do grupo internacional2.
| Informação clínica essencial | Tipo de terapia neoadjuvante; achados e biomarcadores pré-tratamento; clipe. |
| Sítio tumoral pré-tratamento identificado essencial | Clipe, leito tumoral microscópico ou mapa de blocos; essencial quando não há carcinoma residual. |
| Resposta patológica essencial | pCR (ypT0 ypN0) / pCR com CDIS (ypTis ypN0) / carcinoma residual / só invasão linfovascular / só células isoladas: não pCR. |
| Tamanho TNM essencial | Maior foco contíguo invasivo, sem fibrose, em mm (≤ 1 mm ou medida). |
| Dimensões da área RCB essencial | d1 × d2 do leito com carcinoma residual, incluindo fibrose. |
| Celularidade essencial | % de câncer no leito e % desse câncer que é in situ. |
| Número de focos e tipo essencial | Focos distintos com tipo, grau e receptores próprios são medidos separadamente. |
| Grau pós-tratamento essencial | Ou não avaliável pelas alterações do tratamento. |
| Linfonodos essencial | Número examinado e positivo; maior depósito sem fibrose (ypN) e extensão com fibrose (RCB); efeito do tratamento; linfonodo marcado. |
| RCB: escore e classe essencial | Quando houve quimioterapia e a calculadora estiver disponível. |
| Invasão linfovascular, margens, CDIS essencial | Como no carcinoma não tratado. |
| RE, RP, HER2 pós-tratamento quando feitos | Doença residual abundante ou morfologia de subtipo diferente. |
| Estadiamento ypTNM essencial | AJCC 8ª / UICC TNM8, com prefixo y. |
Referências
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- Provenzano E, Bossuyt V, Viale G, Cameron D, Badve S, Denkert C, et al. Standardization of pathologic evaluation and reporting of postneoadjuvant specimens in clinical trials of breast cancer: recommendations from an international working group. Mod Pathol. 2015;28(9):1185-201. doi:10.1038/modpathol.2015.74
- Cortazar P, Zhang L, Untch M, Mehta K, Costantino JP, Wolmark N, et al. Pathological complete response and long-term clinical benefit in breast cancer: the CTNeoBC pooled analysis. Lancet. 2014;384(9938):164-72. doi:10.1016/S0140-6736(13)62422-8
- Symmans WF, Peintinger F, Hatzis C, Rajan R, Kuerer H, Valero V, et al. Measurement of residual breast cancer burden to predict survival after neoadjuvant chemotherapy. J Clin Oncol. 2007;25(28):4414-22. doi:10.1200/JCO.2007.10.6823
- Yau C, Osdoit M, van der Noordaa M, Shad S, Wei J, de Croze D, et al. Residual cancer burden after neoadjuvant chemotherapy and long-term survival outcomes in breast cancer: a multicentre pooled analysis of 5161 patients. Lancet Oncol. 2022;23(1):149-60. doi:10.1016/S1470-2045(21)00589-1
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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 18.
