Hospital das Clínicas FMUSPDivisão deAnatomia Patológica
Manual de patologia mamáriaRoteiros para formulação de laudos

Parte II · Lesões e diagnóstico morfológico · Capítulo 3

Lesões papilíferas e adenose microglandular

Lesões papilíferas têm eixos fibrovasculares revestidos por epitélio e vão do papiloma benigno ao carcinoma papilífero invasivo. A pergunta-chave em todas é a mesma: onde estão as células mioepiteliais? Este capítulo também trata da adenose microglandular, a única lesão benigna da mama sem camada mioepitelial.

3.1O espectro das lesões papilíferas

Uma lesão é papilífera quando tem eixos de tecido conjuntivo com vasos (eixos fibrovasculares) revestidos por epitélio. O diagnóstico depende de três observações: o tipo de epitélio que reveste as papilas (duas camadas ou população monótona), a presença de células mioepiteliais ao longo dos eixos e a presença delas na periferia da lesão3,1.

LesãoEpitélioMioepiteliais nos eixosMioepiteliais na periferiaNatureza
PapilomaDuas camadas, pode ter hiperplasia usualPresentesPresentesBenigna
Papiloma com atipias / com carcinoma in situFoco de proliferação monótona dentro do papilomaPresentes nas áreas benignasPresentesRisco aumentado / in situ
Carcinoma ductal in situ papilíferoMonótonoAusentes ou escassasPresentesIn situ
Carcinoma papilífero encapsuladoMonótono, baixo ou intermediário grauAusentesAusentes (ou focais)Comportamento indolente
Carcinoma papilífero sólidoMonótono, frequentemente neuroendócrino e mucossecretorAusentesVariávelIn situ ou invasivo, conforme o contorno
Carcinoma papilífero invasivoMonótono, infiltrando o estromaAusentesAusentesInvasivo

3.2Papiloma e papiloma com atipias

O papiloma é uma proliferação intraductal, central (próximo ao mamilo) ou periférica, com eixos fibrovasculares revestidos por células luminais e mioepiteliais. Pode conter hiperplasia ductal usual, metaplasia apócrina e esclerose. Quando surge dentro dele uma população monótona de baixo grau, fala-se em papiloma com atipias (hiperplasia ductal atípica) ou com carcinoma ductal in situ, conforme a extensão3.

Papiloma com eixos fibrovasculares revestidos por duas camadas celulares.
Figura 3.1 Papiloma: eixos fibrovasculares revestidos por epitélio luminal e camada mioepitelial. HE. Acervo do autor.
Papiloma com área de proliferação epitelial monótona.
Figura 3.2 Papiloma com atipias: proliferação monótona de baixo grau dentro do papiloma. HE. Acervo do autor.

O papel da imuno-histoquímica

  • Marcadores mioepiteliais (p63, calponina, SMMHC) confirmam a camada ao longo dos eixos e na periferia1.
  • CK5/6 ou CK14 mostram padrão em mosaico na hiperplasia usual e ausência de marcação nas áreas atípicas, que costumam ser difusamente RE-positivas (capítulo 4).
  • Em fragmentos de biópsia por agulha, a esclerose e o aprisionamento de túbulos podem simular invasão; a camada mioepitelial evita o falso diagnóstico.

3.3Carcinomas papilíferos

O carcinoma papilífero representa 0,5% a 1% dos carcinomas mamários1. As células que revestem as papilas formam uma população monótona e não há células mioepiteliais ao longo dos eixos fibrovasculares. A classificação depende do que acontece na periferia e da presença de invasão convencional ao redor.

Carcinoma papilífero com papilas finas revestidas por células monótonas.
Figura 3.3 Carcinoma papilífero: papilas delicadas revestidas por população celular monótona, sem camada mioepitelial ao longo dos eixos. HE. Acervo do autor.
Imuno-histoquímica para actina de músculo liso em carcinoma papilífero.
Figura 3.4 Carcinoma papilífero, imuno-histoquímica para actina de músculo liso (AML): a marcação acompanha as paredes vasculares e os miofibroblastos dos eixos fibrovasculares, sem camada mioepitelial contínua revestindo as papilas. Como a AML também marca vasos e miofibroblastos, deve ser combinada com p63 ou calponina. Acervo do autor.

Distribuição dos carcinomas papilíferos puros na série de Rakha

247 carcinomas papilíferos puros de três instituições.

0%25%50%75%100%Intracístico84%Sólido12%Carcinoma ductal in situ papilífero4%

Adaptado de Rakha et al., 20111.

Roteiro diagnóstico (aula do autor, baseado em Rakha et al.)

  1. Papiloma com componente maligno e mioepiteliais ao redor dos canalículos → carcinoma papilífero in situ ou carcinoma ductal in situ em papiloma.
  2. Carcinoma papilífero sem papiloma, com mioepiteliais ao redor → carcinoma papilífero in situ.
  3. Carcinoma papilífero sem papiloma e sem mioepiteliais, circunscrito, unifocal, retroareolar → carcinoma papilífero encapsulado (ou encapsulado com microinvasão).
  4. Infiltração do estroma além da cápsula → carcinoma papilífero invasivo1.

3.4Carcinoma papilífero encapsulado

O carcinoma papilífero encapsulado (antes chamado intracístico) é um nódulo circunscrito, envolto por cápsula fibrosa, que não tem células mioepiteliais nem dentro nem na periferia. Por isso Rakha e colaboradores o consideram uma forma de carcinoma invasivo com crescimento expansivo, mas com comportamento muito favorável: metástase linfonodal em 3% e recidiva rara1.

Nódulo papilífero circunscrito com cápsula fibrosa.
Figura 3.5 Carcinoma papilífero encapsulado: nódulo circunscrito envolto por cápsula fibrosa. HE. Acervo do autor.
Imuno-histoquímica para p63 em carcinoma papilífero encapsulado, sem marcação na periferia.
Figura 3.6 Carcinoma papilífero encapsulado, imuno-histoquímica para p63: ausência de núcleos positivos na interface entre a lesão e a cápsula, o achado que define o encapsulado. Acervo do autor.
≥ 60 anos
faixa etária típica (mediana de 69 anos no tipo intracístico e 76 no sólido)1
3%
de metástase linfonodal nos carcinomas papilíferos encapsulados1
RE+ / HER2−
fenótipo de todos os casos testados, com citoqueratinas luminais difusas1

Carcinoma papilífero intracístico versus sólido

Características clínico-patológicas na série de Rakha.

Intracístico (n = 207)Sólido (n = 30)
0%25%50%75%100%Metástase linfonodal3%12%Carcinoma in situ associado70%67%Grau 147%40%

Adaptado de Rakha et al., 20111, tabela 1.

Quadro característico

  • Paciente na sexta década ou mais.
  • Localização retroareolar.
  • Lesão circunscrita.
  • Sem células mioepiteliais (ausência completa ou focal)1.

Estadiamento e laudo

Rakha propõe tratamento local adequado, sem quimioterapia de rotina1. Na prática, o carcinoma papilífero encapsulado sem invasão convencional ao redor é estadiado e conduzido como doença in situ; se houver carcinoma invasivo convencional associado, o estadiamento usa o tamanho desse componente3.

3.5Adenose microglandular

A adenose microglandular é uma proliferação de glândulas pequenas e redondas, com luz aberta e secreção eosinofílica, revestidas por uma única camada de células e distribuídas de forma desordenada no estroma e no tecido adiposo. Não tem células mioepiteliais, mas tem membrana basal2.

MarcadorAdenose microglandularCarcinoma tubular (diagnóstico diferencial)
Células mioepiteliais (p63)AusentesAusentes
Membrana basal (colágeno IV, laminina, reticulina)PresenteAusente
S-100PositivaGeralmente negativa
RE e RPNegativosFortemente positivos

Perfil da adenose microglandular segundo Shin et al., 20092.

Uma lesão benigna que pode progredir

Shin e colaboradores estudaram 17 casos e mostraram alterações genéticas compartilhadas entre a adenose microglandular, a forma atípica, o carcinoma in situ e o carcinoma invasivo do mesmo caso (ganho de 8q, perda de 5q e outras), num perfil semelhante ao dos carcinomas basais, RE-negativos e associados a BRCA1. A adenose microglandular é, portanto, precursora não obrigatória de carcinoma2; hoje é incluída no espectro das lesões triplo-negativas de baixo grau (capítulo 15)4.

3.6Roteiro do laudo

Dados para laudo anatomopatológico · Lesões papilíferas

Baseado na OMS3, em Rakha et al.1 e no conjunto de dados ICCR para lesões in situ5.

Tipo de lesão essencialPapiloma, papiloma com atipias ou com carcinoma in situ, carcinoma papilífero in situ, encapsulado, sólido ou invasivo.
Células mioepiteliais essencialAo longo dos eixos e na periferia; marcadores usados.
Grau nuclear essencialNos componentes atípicos ou malignos.
Invasão convencional associada essencialPresença e tamanho; é esse componente que define o pT.
Tamanho da lesão papilífera essencialMaior dimensão.
Margens essencialDistância da lesão e de eventual carcinoma in situ adjacente.
RE e HER2 recomendadoNo carcinoma papilífero encapsulado, tipicamente RE+ e HER2−.

Referências

  1. Rakha EA, Gandhi N, Climent F, van Deurzen CH, Haider SA, Dunk L, et al. Encapsulated papillary carcinoma of the breast: an invasive tumor with excellent prognosis. Am J Surg Pathol. 2011;35(8):1093-103. doi:10.1097/PAS.0b013e31821b3f65
  2. Shin SJ, Simpson PT, Da Silva L, Jayanthan J, Reid L, Lakhani SR, et al. Molecular evidence for progression of microglandular adenosis (MGA) to invasive carcinoma. Am J Surg Pathol. 2009;33(4):496-504. doi:10.1097/PAS.0b013e31818af361
  3. WHO Classification of Tumours Editorial Board. Breast tumours. 6th ed. Lyon (France): International Agency for Research on Cancer; 2025. (WHO classification of tumours series).
  4. Geyer FC, Pareja F, Weigelt B, Rakha E, Ellis IO, Schnitt SJ, et al. The spectrum of triple-negative breast disease: high- and low-grade lesions. Am J Pathol. 2017;187(10):2139-51. doi:10.1016/j.ajpath.2017.03.016
  5. Fox SB, Webster F, Chen CJ, Chua B, Collins L, Foschini MP, et al. Dataset for pathology reporting of ductal carcinoma in situ, variants of lobular carcinoma in situ and low-grade lesions: recommendations from the International Collaboration on Cancer Reporting (ICCR). Histopathology. 2022;81(4):467-76. doi:10.1111/his.14725

Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 3. Fotomicrografias: acervo do autor.