2.1Por que a fase pré-analítica importa
A imuno-histoquímica dos biomarcadores mamários é uma medida semiquantitativa: o laudo informa porcentagem de células e intensidade de marcação, e essas grandezas decidem o tratamento. Elas dependem diretamente de como o tecido foi preservado. As diretrizes ASCO/CAP para receptores hormonais e para HER2 tratam o manuseio do tecido como requisito obrigatório do teste, e não como recomendação acessória1,2.
As três fases de um teste imuno-histoquímico
- Pré-analítica: tempo de isquemia fria, tipo de fixador, tempo de fixação, espessura das fatias, processamento, armazenamento de blocos e lâminas. É a fase em que ocorre a maior parte dos falsos negativos evitáveis.
- Analítica: recuperação antigênica, clone do anticorpo, sistema de detecção, controles (capítulo 11).
- Pós-analítica: interpretação, escore e redação do laudo (capítulos 12 a 14).
2.2Tipos de espécime
Cada tipo de espécime tem um objetivo diferente e, portanto, prioridades macroscópicas diferentes. O quadro abaixo resume o que é crítico em cada um.
| Espécime | Objetivo principal | Pontos críticos na macroscopia |
|---|---|---|
| Biópsia por agulha grossa (core) | Diagnóstico e biomarcadores pré-operatórios | Imersão imediata no formol; registrar a hora; contar e medir os fragmentos; incluir todo o material. É o espécime preferido para RE, RP, HER2 e Ki-671,5. |
| Exérese de nódulo | Diagnóstico de lesão palpável | Medir a lesão nas três dimensões; avaliar o aspecto da superfície de corte; representar a interface com o tecido adjacente. |
| Setorectomia com localização (agulhamento) | Retirar lesão não palpável ou microcalcificações | Radiografia do espécime; manter as agulhas como referência; garantir que a área radiológica foi amostrada9. |
| Cirurgia conservadora (quadrantectomia, ressecção segmentar) | Tratamento com preservação da mama | Orientação pelos reparos do cirurgião; tinta por margem; medir a distância do tumor a cada margem8. |
| Mastectomia | Tratamento | Localizar o tumor por quadrante ou posição horária e distância ao mamilo; avaliar pele, mamilo e margem profunda (fáscia ou músculo)8. |
| Linfonodo sentinela e linfadenectomia | Estadiamento axilar | Contar todos os linfonodos; seccionar em fatias de cerca de 2 mm; incluir todo o tecido nodal14. |
2.3Do centro cirúrgico ao formol
O intervalo entre a retirada da peça e o início da fixação é o tempo de isquemia fria. Durante esse período o tecido sofre autólise e os antígenos começam a se degradar. Por isso as diretrizes exigem que a peça seja seccionada e colocada no fixador o mais rápido possível, e que os horários fiquem registrados1,3.
Peças de local remoto devem ser seccionadas pelo tumor e enviadas imersas em formol1.
Formol tamponado a 10%, em volume suficiente, com gaze entre as fatias1,3.
Processador convencional; parafina a no máximo 60 °C; formol do processador sempre renovado3.
Penetrar não é fixar
Um erro comum é supor que fragmentos pequenos fixam mais depressa. O formol penetra rapidamente em amostras finas, mas a reação química de fixação (formação de pontes entre proteínas) é lenta e leva praticamente o mesmo tempo em uma biópsia por agulha e em uma fatia de 2 a 3 mm3. Uma biópsia retirada do formol cedo demais continua, na prática, fixada pelo álcool do processador, e responde de modo imprevisível à recuperação antigênica padronizada3.
Tempo necessário para completar a reação química de fixação
A penetração é rápida (uma fatia de 4 mm é penetrada em cerca de 1 hora, uma de 1 cm em cerca de 4 horas); a reação demora muito mais.
Dados citados no consenso de Yaziji e colaboradores, 20083.
Requisitos de manuseio para RE, RP, HER2 e Ki-67
- Fixador: somente formol tamponado a 10% (formaldeído a 4%, pH 7,0–7,4). Outro fixador exige validação própria com pelo menos 100 amostras3.
- Tempo: de 6 a 72 horas1,2. O consenso de 2008 recomenda pelo menos 8 horas, idealmente de 24 a 48 horas; o tempo no processador conta como fixação se o formol do processador for novo3.
- Fatias: a intervalos de 5 a 10 mm, depois da inspeção macroscópica e da marcação das margens1,2.
- Horário de corte: cada laboratório deve definir a hora limite para colocar peças no processador; o que chega depois fica em formol novo durante a noite3.
- Controle interno: quando o tumor é bem visível, retirar uma fatia de 2 mm de tumor com tecido mamário normal no mesmo cassete, para servir de controle nos testes de biomarcadores3.
- Lâminas brancas: não usar lâminas cortadas há mais de 6 semanas1.
2.4Tempo de fixação e imunorreatividade
Goldstein e colaboradores fixaram fatias de 24 carcinomas fortemente positivos para RE por tempos controlados, de 3 horas a 7 dias, e mediram a marcação pelo escore Q (0 a 7, soma de intensidade e proporção)4. Com 3 horas de fixação, tumores que eram francamente positivos pareceram fracos ou negativos. A marcação só estabilizou a partir de 6 a 8 horas.
Escore de RE conforme o tempo de fixação em formol
24 carcinomas invasivos RE-positivos, clone 1D5. Com a recuperação antigênica mais curta (25 min), a fixação prolongada também passou a reduzir o sinal.
Adaptado de Goldstein et al., 20034, tabelas 1 e 2.
Biópsias fixadas por pouco tempo
Na mesma instituição, as biópsias por agulha que deram RE negativo com peça cirúrgica positiva tinham ficado em média 1,2 hora em formol; as concordantes, 6,3 horas4.
Ki-67 é ainda mais sensível
O índice de Ki-67 cai com fixadores diferentes do formol tamponado, com atrasos de 16 horas ou mais antes da fixação e com fixação curta demais (3 horas) ou longa demais (14 dias). O antígeno também se degrada com o armazenamento prolongado do bloco5.
2.5Biópsia por agulha ou peça cirúrgica?
A biópsia por agulha costuma ter isquemia mais curta e fixação mais uniforme do que a peça cirúrgica. Por isso as diretrizes a preferem para os biomarcadores, desde que seja representativa1,5. Ela também é, muitas vezes, o único material disponível antes da quimioterapia neoadjuvante.
Concordância entre biópsia por agulha e peça cirúrgica
353 pacientes, agulha 16G guiada por ultrassom. RE e RP comparados em três categorias (<1%, 1–10%, >10%).
Adaptado de Tamaki et al., 20106.
O que aconteceu com os 127 casos diagnosticados como carcinoma ductal in situ na biópsia
Quatro em cada dez tinham componente invasivo na peça cirúrgica; 63,5% desses focos invasivos eram pequenos (T1mi ou T1a).
Adaptado de Tamaki et al., 20106, tabela 1.
Quando repetir o teste na peça cirúrgica
- Tumor da peça com tipo histológico ou grau diferente do visto na biópsia, pela possibilidade de heterogeneidade1,2.
- Dúvida sobre o manuseio da biópsia: isquemia longa, pouco tempo em formol ou fixador diferente2.
- Resultado negativo considerado inesperado pelo patologista, com suspeita de erro de teste2.
- Para o Ki-67, a recomendação é testar na biópsia, que reflete melhor o estado biológico do tumor7,5.
2.6Orientação, tintas e margens
A avaliação das margens depende da orientação feita pelo cirurgião (fios, clipes) e da pintura de cada superfície com uma cor diferente antes de qualquer corte. Cada margem próxima deve ser medida ao microscópio e a distância informada no laudo, em milímetros. Quando o cirurgião envia ampliações de margem em separado, elas passam a ser as margens definitivas8.
Recidiva local conforme o estado da margem
Metanálise de 33 estudos e 28.162 pacientes tratadas com cirurgia conservadora. Razão de chances de recidiva local; 1 = risco da margem negativa.
Adaptado de Houssami et al., 201410, modelo 2.
Uma margem negativa mais larga não reduziu a recidiva de forma significativa
Mesma metanálise. Razão de chances de recidiva local conforme a distância usada para definir "margem negativa", em relação a 1 mm.
Adaptado de Houssami et al., 201410, modelo 1.
2.7Procedimentos ilustrados
Exame intraoperatório
No intraoperatório o objetivo é orientar a cirurgia: confirmar a lesão, avaliar margens e decidir sobre ampliações. Os desenhos a seguir mostram a sequência para os três cenários mais comuns. O exame intraoperatório do linfonodo sentinela é tratado no capítulo 9.

- ATingimento com tinta nanquim para demarcação designada de margens (utilizando-se várias cores, se necessário).
- BEncaminhamento ao exame radiológico com agulhas de calibres diferentes para localização de lesões microcalcificadas.
- CSecção seriada em fatias de 2 a 3 mm para identificação de eventual alteração macroscópica.

- AIdentificação das margens e raspado dos afloramentos externos de parênquima mamário.
- BSecção seriada em fatias de 2 a 3 mm.
- CColeta de raspado citológico da lesão principal e das margens cirúrgicas; corte histológico por congelação das áreas suspeitas.

- ASecciona-se o espécime e efetua-se raspado citológico da superfície de corte.
- BRealiza-se o corte por congelação de uma representação do nódulo.
Exame no laboratório
Na peça fixada, os cortes seriados permitem localizar o tumor, medir sua distância às margens e escolher os fragmentos. A representação deve incluir o tumor, as margens mais próximas e as regiões em que o parênquima aflora na superfície. Para a fixação, as fatias são feitas a intervalos de 5 a 10 mm1,2; os cortes finos de 2 a 3 mm servem para identificar lesões pequenas e escolher os fragmentos.

- ADemarcação de margens com tinta nanquim.
- BCortes seriados com espessura de 2 a 3 mm.
- CRepresentação do tumor e regiões marginais, principalmente aquelas em que o parênquima mamário aflora na superfície. Havendo retalhos de pele, estes devem ser representados também.

- ACortes iniciais e manuseio da peça cirúrgica para colheita de fragmentos.
- BProcessamento e transferência para lâminas.
- CLâminas preparadas para exame citológico ou histológico.
- DIdentificação e fixação de estruturas anatômicas com auxílio de instrumentos (como tesouras cirúrgicas).
- ESecção seriada do parênquima mamário com marcações indicativas.
- FRepresentação esquemática do corte seriado com inclusão de fragmentos para análise laboratorial.

2.8Microcalcificações e linfonodos
Microcalcificações
- Confirmar pela radiografia do espécime que as calcificações-alvo estão na peça9.
- Amostrar de modo que a lesão responsável pelas calcificações seja examinada ao microscópio9.
- No laudo, relacionar as calcificações radiológicas com a lesão encontrada9.
- Se houve biópsia prévia, amostrar e documentar o local da biópsia9.
Linfonodos
- Seccionar cada linfonodo em fatias de cerca de 2 mm, para não deixar de ver macrometástases (> 2 mm)14.
- Contar e incluir todos os linfonodos dissecados (figura 2.6).
- A imuno-histoquímica não é necessária de rotina; ajuda em casos selecionados, como carcinoma lobular ou após quimioterapia14.
- Definições de macrometástase, micrometástase e células tumorais isoladas: capítulo 9.
2.9Roteiro do laudo macroscópico
Os itens abaixo seguem os elementos do conjunto de dados do ICCR para carcinoma invasivo e as exigências de registro das diretrizes ASCO/CAP. Os marcados como essencial são o mínimo para o laudo; os marcados como recomendado são desejáveis8,1.
As diretrizes ASCO/CAP exigem que esses dados sejam registrados na requisição ou no laudo1.
| Hora da retirada da peça essencial | Informada pelo centro cirúrgico ou pela radiologia. |
| Hora de imersão no fixador essencial | Permite calcular o tempo de isquemia fria. |
| Tipo de fixador essencial | Formol tamponado a 10%; se outro, informar. |
| Duração da fixação essencial | Em horas, até o início do processamento. |
Elementos derivados do conjunto de dados ICCR8.
| Procedimento cirúrgico essencial | Biópsia, setorectomia com localização, cirurgia conservadora, mastectomia, linfonodo sentinela etc. |
| Lateralidade essencial | Mama direita ou esquerda; em tumores bilaterais, um laudo por lado. |
| Dimensões e peso do espécime recomendado | Três dimensões em milímetros; peso em gramas. |
| Orientação essencial | Reparos do cirurgião e código de cores das tintas por margem. |
| Localização do tumor essencial | Quadrante ou posição horária e distância ao mamilo. |
| Número de focos essencial | Único ou múltiplos; tamanho de cada foco é recomendado. |
| Tamanho macroscópico essencial | Maior dimensão em milímetros, a ser correlacionada com o tamanho microscópico e de imagem. |
| Distância às margens essencial | Margem mais próxima e distância de cada margem. |
| Pele, mamilo e plano profundo essencial | Ulceração, nódulos satélites, retração; fáscia ou músculo presentes. |
| Radiografia do espécime recomendado | Presença das calcificações-alvo e local das agulhas. |
| Legenda dos blocos essencial | Correspondência entre cada cassete e a região amostrada. |
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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 2. Ilustrações de macroscopia: acervo do autor.
