15.1Triplo-negativo e basal-like: termos diferentes
Triplo-negativo
Sobreposição entre triplo-negativo e basal-like
Proporções em estudos de expressão gênica e imuno-histoquímica.
Rakha et al., 20081; Lerma et al., 20093; Nielsen et al., 20044.
Equiparar os dois grupos pode enganar
Triplo-negativos e basal-like compartilham muitas características moleculares e morfológicas, mas não são a mesma coisa2. Cerca de 1 em cada 5 casos é discordante: há basal-like que expressam RE ou HER2 em níveis baixos, e triplo-negativos que não são basal-like3,1.
15.2Morfologia e imunofenótipo
Morfologia do carcinoma basal-like
23 tumores basal-like definidos por microarranjo.
Livasy et al., 20065.
Na lâmina
- Mitoses muito numerosas, necrose central geográfica, borda expansiva e infiltrado linfocitário são os achados mais associados ao basal-like5.
- Marcadores mioepiteliais (actina, p63, CD10) são pouco frequentes, ao contrário das queratinas basais e da vimentina5.
- Carcinomas metaplásicos e medulares (atualmente tipo não especial com padrão medular) concentram-se neste grupo (capítulo 6)15.
- Associação com mutação germinativa de BRCA11.
15.3Prognóstico
Triplo-negativo tem pior sobrevida em todos os estádios
Razão de riscos para sobrevida global, triplo-negativo vs. demais, ajustada para idade, raça, grau, cirurgia e radioterapia.
Li et al., 20176; 158.358 pacientes do SEER, validado em 2.049 pacientes de uma instituição.
Queratinas basais e EGFR
Expressão de queratinas basais e de EGFR associou-se a menor sobrevida específica em 930 pacientes com 17,4 anos de seguimento médio4.
Fatores a relatar
Tamanho, linfonodos e tipo histológico mantêm valor. Os TILs são o principal fator prognóstico adicional no triplo-negativo e são tratados no capítulo 16. A resposta à neoadjuvância (pCR, RCB) é especialmente informativa neste grupo (capítulo 18).
15.4Subtipos moleculares de Lehmann
A análise de 587 triplo-negativos de 21 bases de dados identificou seis subtipos estáveis e um grupo instável, cada um com vias biológicas e sensibilidade a fármacos diferentes em linhagens celulares7.
| Subtipo | Biologia dominante | Sensibilidade em modelos |
|---|---|---|
| Basal-like 1 (BL1) | Ciclo celular, resposta a dano de DNA | Cisplatina |
| Basal-like 2 (BL2) | Fatores de crescimento, glicólise | Cisplatina |
| Imunomodulador (IM) | Genes de células imunes e de sinalização imune | — |
| Mesenquimal (M) | Transição epitélio-mesênquima, motilidade | Inibidor de PI3K/mTOR, dasatinibe |
| Mesenquimal stem-like (MSL) | Como M, com baixa proliferação | Inibidor de PI3K/mTOR, dasatinibe |
| Luminal com receptor de androgênio (LAR) | Sinalização de receptor de androgênio | Bicalutamida (antiandrogênio) |
Lehmann et al., 20117. Na prática, o subtipo IM reflete genes de células imunes e o LAR corresponde à expressão de receptor de androgênio; a classificação completa não é feita na rotina.
15.5Triplo-negativos de baixo grau
Dois grupos de lesões triplo-negativas de baixo grau têm comportamento indolente: a família de neoplasias triplo-negativas de baixo grau, com a genômica complexa do triplo-negativo usual, e os tumores de tipo glândula salivar, sem as alterações moleculares do triplo-negativo convencional e definidos por fusões ou mutações específicas8. Muitas dessas pacientes não se beneficiam de quimioterapia sistêmica9.
| Entidade | Pistas morfológicas e imuno-histoquímicas | Alteração molecular |
|---|---|---|
| Carcinoma adenoide cístico clássico | Padrão cribriforme, tubular e sólido; dupla população; CD117 e MYB difusos (65–100%) | MYB-NFIB, rearranjo de MYBL1 ou amplificação de MYB10 |
| Carcinoma secretor | Crescimento microcístico, secreção eosinofílica, citoplasma granular ou vacuolado | ETV6-NTRK310 |
| Carcinoma de células altas com polaridade invertida | Núcleos afastados da membrana basal, padrão papilífero sólido | Mutação hotspot de IDH2 e PIK3CA10 |
| Carcinoma mucoepidermoide de baixo grau | Células mucosas, intermediárias e epidermoides | CRTC1-MAML2 nos poucos casos estudados9 |
| Carcinoma de células acinares | Grânulos zimogênicos, lisozima e amilase | Sem perfil específico; semelhante ao triplo-negativo10 |
| Carcinoma adenoescamoso de baixo grau | Glândulas e ninhos escamosos em estroma desmoplásico | — |
| Carcinoma metaplásico tipo fibromatose | Células fusiformes brandas; queratinas e p63 focais | — |
| Adenomioepitelioma RE− | Dupla população epitelial e mioepitelial | HRAS Q61 e genes da via PI3K10 |
Na prática
Antes de liberar um “carcinoma triplo-negativo de alto risco”, confirmar o grau e excluir um tipo especial de baixo grau. O MYB, o NTRK pan (para ETV6-NTRK3) e o teste de IDH2 ajudam na confirmação. Tipos puros e de baixo grau devem ser nomeados no laudo, porque mudam a indicação de quimioterapia9,10.
15.6Receptor de androgênio e RE baixo
Receptor de androgênio
RE baixo positivo (1–10%)
- Relatar como “RE baixo positivo”, com comentário, e não como negativo13.
- Responde à quimioterapia e tem prognóstico semelhantes aos dos RE-negativos14.
- Muitos são basal-like por expressão gênica (capítulo 12).
15.7Roteiro do laudo
Baseado nas diretrizes ASCO/CAP13, na OMS15 e no grupo europeu de patologia mamária9.
| Tipo histológico essencial | Nomear tipos especiais (adenoide cístico, secretor, células altas, metaplásico) e o padrão medular. |
| Grau de Nottingham essencial | Separa os triplo-negativos de baixo grau do grupo usual. |
| RE e RP essencial | Porcentagem; RE 1–10% relatado como baixo positivo, com comentário. |
| HER2 essencial | Escore 0, 1+, 2+; distinguir 0 de 1+ (HER2-baixo) e ultrabaixo. Capítulo 13. |
| TILs estromais recomendado | Porcentagem pelo método do grupo internacional. Capítulo 16. |
| PD-L1 quando solicitado | Clone e escore validados para o fármaco. Capítulo 16. |
| Marcadores basais (CK5/6, EGFR) opcional | Não são necessários para a definição de triplo-negativo. |
| Receptor de androgênio opcional | Porcentagem; sem ponto de corte padronizado. |
| Testes moleculares de tipo especial quando indicado | MYB, NTRK, IDH2, conforme a morfologia. |
Referências
- Rakha EA, Reis-Filho JS, Ellis IO. Basal-like breast cancer: a critical review. J Clin Oncol. 2008;26(15):2568-81. doi:10.1200/JCO.2007.13.1748
- Rakha EA, Ellis IO. Triple-negative/basal-like breast cancer: review. Pathology. 2009;41(1):40-7.
- Lerma E, Barnadas A, Prat J. Triple negative breast carcinomas: similarities and differences with basal like carcinomas. Appl Immunohistochem Mol Morphol. 2009;17(6):483-94.
- Nielsen TO, Hsu FD, Jensen K, Cheang M, Karaca G, Hu Z, et al. Immunohistochemical and clinical characterization of the basal-like subtype of invasive breast carcinoma. Clin Cancer Res. 2004;10(16):5367-74.
- Livasy CA, Karaca G, Nanda R, Tretiakova MS, Olopade OI, Moore DT, et al. Phenotypic evaluation of the basal-like subtype of invasive breast carcinoma. Mod Pathol. 2006;19(2):264-71. doi:10.1038/modpathol.3800528
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- Lehmann BD, Bauer JA, Chen X, Sanders ME, Chakravarthy AB, Shyr Y, et al. Identification of human triple-negative breast cancer subtypes and preclinical models for selection of targeted therapies. J Clin Invest. 2011;121(7):2750-67. doi:10.1172/JCI45014
- Geyer FC, Pareja F, Weigelt B, Rakha E, Ellis IO, Schnitt SJ, et al. The spectrum of triple-negative breast disease: high- and low-grade lesions. Am J Pathol. 2017;187(10):2139-51. doi:10.1016/j.ajpath.2017.03.016
- Cserni G, Quinn CM, Foschini MP, Bianchi S, Callagy G, Chmielik E, et al. Triple-negative breast cancer histological subtypes with a favourable prognosis. Cancers (Basel). 2021;13(22):5694. doi:10.3390/cancers13225694
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- Srivastava TP, Dhar R, Karmakar S. Looking beyond the ER, PR, and HER2: what's new in the ARsenal for combating breast cancer? Reprod Biol Endocrinol. 2025;23(1):9. doi:10.1186/s12958-024-01338-z
- Cancer Genome Atlas Network. Comprehensive molecular portraits of human breast tumours. Nature. 2012;490(7418):61-70. doi:10.1038/nature11412
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- WHO Classification of Tumours Editorial Board. Breast tumours. 6th ed. Lyon (France): International Agency for Research on Cancer; 2025. (WHO classification of tumours series).
Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 15.
