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Manual de patologia mamáriaRoteiros para formulação de laudos

Parte II · Lesões e diagnóstico morfológico · Capítulo 6

Carcinoma invasivo: tipo não especial e tipos especiais

Cerca de um quarto dos carcinomas invasivos tem morfologia de tipo especial. Reconhecê-los importa porque vários têm prognóstico próprio, alguns muito bons apesar de triplo-negativos, e porque o perfil imuno-histoquímico esperado para cada tipo ajuda a detectar erros de teste.

6.1Tipo não especial e tipos especiais

O carcinoma invasivo de tipo não especial (antigo "ductal invasivo sem outra especificação") é o diagnóstico de exclusão: não tem as características de nenhum tipo especial. Um carcinoma é classificado como de tipo especial quando o padrão característico ocupa pelo menos 90% do tumor. Quando o tipo especial ocupa entre 10% e 90%, usa-se "carcinoma misto de tipo não especial e tipo especial"6.

Biópsia por agulha

A classificação como tipo especial puro não pode ser feita com segurança em fragmentos de biópsia; em geral depende da peça cirúrgica6.

6.2Frequência e prognóstico

Sobrevida global em 10 anos por tipo histológico

Faixas relatadas na literatura e compiladas por Weigelt et al.

0%25%50%75%100%Tubular90–100%Adenoide cístico90–100%Mucinoso80–100%Medular50–90%Ductal / tipo não especial35–50%Lobular invasivo35–50%

Adaptado de Weigelt et al., 20081, tabela 1. Valores históricos, anteriores aos tratamentos atuais.

Frequência relativa dos principais tipos (limite superior das faixas relatadas)

Os tipos especiais somam cerca de 25% dos carcinomas invasivos.

0%25%50%75%100%Tipo não especial (faixa superior)80%Lobular invasivo (faixa superior)15%Medular (faixa superior)7%Tubular (faixa superior)6%Neuroendócrino (faixa superior)5%Apócrino (faixa superior)4%

Adaptado de Weigelt et al., 20081, tabela 1.

O que a classificação molecular acrescentou

Weigelt analisou 11 tipos especiais por expressão gênica. O tipo não especial e o lobular incluem todos os subtipos moleculares, mas a maioria dos tipos especiais é homogênea: tubular, mucinoso e neuroendócrino são luminais; apócrino forma um grupo próprio (apócrino molecular, com receptor de androgênio); medular, adenoide cístico e metaplásico são basais. Ser basal, portanto, nem sempre significa prognóstico ruim1.

6.3Tipos especiais de baixo grau e RE-positivos

Túbulos angulados com luz aberta em estroma desmoplásico.
Figura 6.1 Carcinoma tubular: túbulos ovais ou angulados, com luz aberta, revestidos por uma só camada de células de baixo grau, em estroma desmoplásico. HE. Acervo do autor.
Ninhos com luzes cribriformes infiltrando o estroma.
Figura 6.2 Carcinoma cribriforme invasivo: ninhos com luzes secundárias regulares ("em peneira"), de baixo grau, infiltrando o estroma. HE. Acervo do autor.
Ninhos de células flutuando em lagos de muco.
Figura 6.3 Carcinoma mucinoso: ninhos de células neoplásicas flutuando em lagos de muco extracelular. HE. Acervo do autor.

Tubular e cribriforme

Baixo grau, fortemente RE e RP positivos, HER2 negativos. Pertencem à via de baixo grau, com perda de 16q, e são transcriptomicamente muito parecidos com o lobular clássico1. Um HER2 positivo nesses tipos, quando puros, deve ser repetido8.

Mucinoso

Ninhos em lagos de muco; tipo A (hipocelular) e tipo B (celular, frequentemente com diferenciação neuroendócrina). Luminal; HER2 positivo deve ser confirmado quando puro1,8.

Micropapilar

Agregados sem eixo vascular em espaços claros, com polaridade invertida ("de dentro para fora"). Entidade molecular distinta e luminal1; associa-se a alta frequência de invasão linfovascular e de metástase linfonodal7.

Neuroendócrino

Expressão de sinaptofisina ou cromogranina; geralmente RE-positivo e luminal1.

6.4Tipos com fenótipo triplo-negativo

A maioria dos carcinomas triplo-negativos é de alto grau e agressiva, mas há um grupo de baixo grau com evolução favorável, em que a quimioterapia sistêmica geralmente não traz benefício: carcinoma adenoide cístico clássico, adenoescamoso de baixo grau, metaplásico semelhante à fibromatose, mucoepidermoide de baixo grau, secretor, de células acinares e de células altas com polaridade invertida2,3.

Tumor circunscrito em pequeno aumento.
Figura 6.4 Carcinoma com padrão medular, pequeno aumento: lesão de contorno expansivo, bem delimitada. HE. Acervo do autor.
Células grandes em lençóis sinciciais com linfócitos.
Figura 6.5 Carcinoma com padrão medular: lençóis sinciciais de células grandes, de alto grau, com infiltrado linfoplasmocitário. HE. Acervo do autor.
Células neoplásicas e matriz condroide eosinofílica.
Figura 6.6 Carcinoma metaplásico com diferenciação mesenquimal (matriz condroide). HE. Acervo do autor.
Células fusiformes com ninhos epiteliais esparsos.
Figura 6.7 Carcinoma metaplásico com componente fusocelular e ninhos epiteliais esparsos. HE. Acervo do autor.
TipoAchado-chaveAlteração molecular característica
Adenoide císticoPadrão cribriforme com dois tipos celulares e material de membrana basalFusão MYB-NFIB (ou rearranjo de MYBL1, amplificação de MYB)2
SecretorSecreção eosinofílica intra e extracelularFusão ETV6-NTRK3, alvo de inibidores de TRK2
Células altas com polaridade invertidaPapilas sólidas, núcleos no polo apicalMutação de IDH2 (R172)2
Mucoepidermoide de baixo grauCélulas mucosas, intermediárias e epidermoidesRearranjo de MAML23
Metaplásico semelhante à fibromatose / adenoescamoso de baixo grauCélulas fusiformes brandas; ninhos escamosos e glandularesGenoma complexo, família triplo-negativa de baixo grau4

Carcinoma com padrão medular

Circunscrito, sincicial, de alto grau, com infiltrado linfocitário denso; basal no perfil gênico, mas com prognóstico melhor que o esperado. Hoje é considerado parte do espectro do carcinoma de tipo não especial rico em linfócitos (capítulo 16)1,7.

Carcinoma metaplásico

Diferenciação escamosa ou mesenquimal (fusiforme, condroide, óssea). Quase sempre triplo-negativo e basal; CK5/6, p63 e citoqueratinas de alto peso ajudam a demonstrar a natureza epitelial do componente fusiforme1,7.

Doenças raras, oportunidades novas

Uma revisão recente sobre subtipos incomuns destaca que o diagnóstico histológico preciso, com confirmação molecular quando indicado, abre caminho para terapias dirigidas (como os inibidores de TRK no carcinoma secretor) e evita tratamento excessivo5.

6.5Quadro-resumo

TipoRE / RPHER2Subtipo molecularComportamento
Tubular+ / +−LuminalExcelente
Cribriforme invasivo+ / +−LuminalExcelente
Mucinoso+ / +−LuminalMuito bom
Lobular clássico+ / +−LuminalSemelhante ao tipo não especial
Micropapilar+ (frequente)variávelLuminal (distinto)Alta taxa de metástase linfonodal
Apócrino− (RA+)variávelApócrino molecularSemelhante ao tipo não especial
Medular / rico em linfócitos− / −−BasalMelhor que o esperado para o grau
Metaplásico− / −−BasalDesfavorável (exceto variantes de baixo grau)
Adenoide cístico− / −−BasalExcelente

Síntese de Weigelt et al., 20081, Cserni et al., 20212 e Cima et al., 20223. RA: receptor de androgênio.

6.6Roteiro do laudo

Dados para laudo anatomopatológico · Tipo histológico

Baseado no conjunto de dados ICCR6.

Tipo histológico essencialTipo não especial, tipo especial (≥ 90%) ou misto (tipo especial entre 10% e 90%, com proporção estimada).
Grau histológico essencialNottingham, com os escores componentes (capítulo 8).
Componente in situ essencialTipo, grau e extensão.
Imuno-histoquímica diagnóstica recomendadoMarcadores usados para tipar o tumor (p63, CK5/6, E-caderina, sinaptofisina etc.).
Estudo molecular recomendadoQuando realizado para confirmar o tipo (por exemplo, fusão ETV6-NTRK3).
Discordância histológica e biomarcadores recomendadoComentar quando o perfil de RE, RP ou HER2 não é o esperado para o tipo.

Referências

  1. Weigelt B, Horlings HM, Kreike B, Hayes MM, Hauptmann M, Wessels LF, et al. Refinement of breast cancer classification by molecular characterization of histological special types. J Pathol. 2008;216(2):141-50. doi:10.1002/path.2407
  2. Cserni G, Quinn CM, Foschini MP, Bianchi S, Callagy G, Chmielik E, et al. Triple-negative breast cancer histological subtypes with a favourable prognosis. Cancers (Basel). 2021;13(22):5694. doi:10.3390/cancers13225694
  3. Cima L, Kaya H, Marchiò C, Nishimura R, Wen HY, Fabbri VP, et al. Triple-negative breast carcinomas of low malignant potential: review on diagnostic criteria and differential diagnoses. Virchows Arch. 2022;480(1):109-26. doi:10.1007/s00428-021-03174-7
  4. Geyer FC, Pareja F, Weigelt B, Rakha E, Ellis IO, Schnitt SJ, et al. The spectrum of triple-negative breast disease: high- and low-grade lesions. Am J Pathol. 2017;187(10):2139-51. doi:10.1016/j.ajpath.2017.03.016
  5. Pareja F, Bhargava R, Borges VF, Brogi E, Canas Marques R, Cardoso F, et al. Unraveling complexity and leveraging opportunities in uncommon breast cancer subtypes. NPJ Breast Cancer. 2025;11(1):6. doi:10.1038/s41523-025-00719-w
  6. Ellis I, Webster F, Allison KH, Dang C, Gobbi H, Kulka J, et al. Dataset for reporting of the invasive carcinoma of the breast: recommendations from the International Collaboration on Cancer Reporting (ICCR). Histopathology. 2024;85(3):418-36. doi:10.1111/his.15191
  7. WHO Classification of Tumours Editorial Board. Breast tumours. 6th ed. Lyon (France): International Agency for Research on Cancer; 2025. (WHO classification of tumours series).
  8. Wolff AC, Hammond MEH, Allison KH, Harvey BE, Mangu PB, Bartlett JMS, et al. Human epidermal growth factor receptor 2 testing in breast cancer: American Society of Clinical Oncology/College of American Pathologists clinical practice guideline focused update. J Clin Oncol. 2018;36(20):2105-22. doi:10.1200/JCO.2018.77.8738

Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 6. Fotomicrografias: acervo do autor.