12.1Do ensaio bioquímico à imuno-histoquímica
Até o início dos anos 1990, o RE era medido por ensaio bioquímico de ligação (carvão-dextrano), em tecido congelado, com ponto de corte em torno de 10 a 20 fmol/mg de proteína. McCarty e colaboradores, em 1985, mostraram que a marcação nuclear por imuno-histoquímica, avaliada por um escore histoquímico, correlacionava-se com o ensaio bioquímico, com sensibilidade e especificidade entre 88% e 95%1. A partir daí a imuno-histoquímica substituiu o método bioquímico, mas faltava provar que ela previa a resposta ao tratamento.
Harvey e colaboradores escolheram o ponto de corte comparando todos os escores possíveis com a sobrevida livre de doença das pacientes tratadas com hormonioterapia. O melhor ponto foi um escore de Allred acima de 2, o que corresponde a apenas 1% a 10% de células fracamente positivas. Com esse critério, 71% dos tumores foram RE-positivos3. É daí que vem a ideia de que poucas células positivas já bastam para indicar benefício.
Concordância entre imuno-histoquímica central e ensaio bioquímico nos ensaios IBCSG VIII e IX
1.547 pacientes; a imuno-histoquímica previu o benefício tão bem quanto o ensaio bioquímico, e melhor para RP na pré-menopausa.
Adaptado de Regan et al., 20066, e da compilação da diretriz ASCO/CAP de 201015.
12.2Sistemas de escore
Todos os sistemas combinam duas informações: a proporção de núcleos tumorais marcados e a intensidade da marcação. As diretrizes atuais pedem que o laudo informe a porcentagem e a intensidade; os escores compostos são opcionais16.
| Escore de Allred | Escore de proporção (EP) | Escore de intensidade (EI) |
|---|---|---|
| 0 | nenhuma célula | negativa |
| 1 | menos de 1/100 (< 1%) | fraca |
| 2 | 1/100 a 1/10 (1% a 10%) | moderada |
| 3 | 1/10 a 1/3 (10% a 33%) | forte |
| 4 | 1/3 a 2/3 (33% a 66%) | — |
| 5 | mais de 2/3 (> 66%) | — |
Escore de Allred
Soma EP (0 a 5) + EI (0 a 3), resultando em 0 ou 2 a 8. Positivo se maior que 2, ponto de corte validado contra a sobrevida2,3.
Escore H (histoquímico)
Soma da porcentagem de células em cada intensidade multiplicada pela intensidade (1×% fraca + 2×% moderada + 3×% forte), de 0 a 300. Proposto por McCarty em 19851; usado como escala contínua no estudo ATAC11.
Escore Q (Quick score)
Variação que soma intensidade (0 a 3) e proporção em faixas (0 a 4 ou mais), usada em programas de qualidade e em estudos de fixação4,5.
Porcentagem e intensidade
Forma exigida pelas diretrizes ASCO/CAP: porcentagem de núcleos tumorais positivos e intensidade média (fraca, moderada ou forte)16.
Os estudos que validaram os ensaios usaram clones e pontos de corte diferentes. O quadro abaixo resume os principais, como apresentados na aula original14.
| Estudo | Receptor | Clone | Ponto de corte para "positivo" |
|---|---|---|---|
| Harvey, 1999 | RE | 6F11 | Allred > 2 (1% a 10% de células fracas)3 |
| Regan 2006; Viale 2007 e 2008 | RE / RP | 1D5 / 1A6 | 1% a 9% (baixo) e ≥ 10% (alto)6,7,8 |
| Cheang, 2006 | RE | SP1 | ≥ 1%9 |
| Phillips, 2007 | RE / RP | 1D5 + ER-2123 / PgR 1294 | Allred ≥ 310 |
| Mohsin, 2004 | RP | PgR 1294 | Allred > 2 (> 1% de células)12 |
| Dowsett, 2008 | RE / RP | 6F11 / 312 | Escore H > 1 (≥ 1%) / ≥ 10%11 |

12.3Uma distribuição bimodal
Quando a técnica é bem padronizada, a maioria dos tumores fica nos extremos: ou não marca, ou marca forte e difusamente. Collins e colaboradores revisaram 825 carcinomas e encontraram 99,2% com escore de Allred 0 ou 7 a 8. Os poucos casos de marcação intermediária eram biópsias por agulha, várias com fixação inadequada13.
Distribuição do escore de Allred em 825 carcinomas
Marcação ausente em 19,0%; forte e difusa (escore 7 ou 8) em 80,1%; intermediária em menos de 1%.
Adaptado de Collins et al., 200513.
Distribuição dos escores de RE na série de Harvey (1.982 tumores)
Em vermelho, os escores considerados negativos (0 e 2). A série mostra mais casos intermediários, mas também concentra a maioria nos escores altos.
Adaptado de Harvey et al., 19993, figura 2.
Implicação prática
Um tumor com marcação fraca e focal é a exceção, não a regra. Diante dele, verificar primeiro o controle interno, o tempo de fixação e o tipo de espécime. A diretriz de 2010 estimava que mais de 20% dos tumores RE-negativos em laboratórios locais tinham alguma expressão na revisão central15; no ensaio BIG 1-98, 73 de 105 tumores negativos localmente tinham mais de 10% de células positivas na revisão central7.
12.4Pontos de corte e categorias atuais
A diretriz ASCO/CAP de 2010 fixou o ponto de corte em 1%. A atualização de 2020 manteve esse limite, mas criou a categoria RE baixo positivo para os tumores com 1% a 10% de células marcadas, que devem ser relatados com um comentário padronizado15,16.
| Resultado | Critério | Como relatar |
|---|---|---|
| Positivo | > 10% dos núcleos tumorais (todo caso com ≥ 1% é considerado positivo) | Porcentagem e intensidade. |
| Baixo positivo (somente RE) | 1% a 10% | "RE baixo positivo", com o comentário recomendado. |
| Negativo | < 1% ou 0% | Informar o estado do controle interno. |
| Não interpretável | Amostra inadequada, controles sem marcação ou falha pré-analítica | Indicar o motivo e sugerir novo teste. |
Para o RP, ≥ 1% de células positivas define positividade; a categoria "baixo positivo" se aplica apenas ao RE16.
12.5RE baixo positivo (1% a 10%)
Os tumores com 1% a 10% de RE são raros, entre 2% e 3% dos RE-positivos segundo a diretriz ASCO/CAP e entre 3% e 9% de todas as pacientes em outra revisão16,21. Biologicamente, a maior parte se parece mais com os tumores RE-negativos.
Tumores com RE positivo também pelo RNA mensageiro (ESR1), conforme a porcentagem na IHQ
465 carcinomas. Entre os tumores com 1% a 9% de RE, 48% tinham perfil basal e só 8% eram luminais B.
Adaptado de Iwamoto et al., 201217.
Benefício da hormonioterapia
Em uma metanálise de 6 estudos (16.606 pacientes), as pacientes com RE de 1% a 9% tratadas com hormonioterapia evoluíram como as não tratadas18.
Resposta à quimioterapia
Em tumores HER2-negativos, o RE baixo associou-se a maior taxa de resposta patológica completa que o RE acima de 10%, e sobrevida semelhante à dos RE-negativos19.
Evolução das pacientes com RE/RP de 1% a 10% comparadas às com menos de 1%
1.424 pacientes HER2-negativas do Instituto Europeu de Oncologia. As diferenças não foram significativas.
Adaptado de Balduzzi et al., 201420.
Por que ainda chamar de positivo?
Porque os dados disponíveis sugerem possível benefício e as pacientes continuam elegíveis para hormonioterapia. O comentário padronizado serve para que o oncologista saiba que se trata de um grupo heterogêneo, frequentemente com comportamento de tumor RE-negativo16.
12.6Receptor de progesterona
A expressão de RP depende da via do estrógeno; por isso o RP funciona como indicador de que essa via está ativa. Seu principal papel hoje é prognóstico: dentro dos tumores RE-positivos, a ausência ou a expressão baixa de RP indica pior evolução.
Benefício do tamoxifeno conforme o RP em tumores RE-positivos
Estudo de Estocolmo, 618 pacientes de baixo risco, seguimento mediano de 21 anos. Razão de taxas de recidiva, tamoxifeno versus controle (1 = sem benefício).
Adaptado de Nordenskjöld et al., 201623.
Recidiva após 5 anos conforme o nível de RP (estudo ATAC)
1.782 pacientes com receptores confirmados centralmente.
Adaptado de Dowsett et al., 200811.
Pontos de corte de RP
Positividade continua definida por ≥ 1%16. Os limites prognósticos (10% ou 20%) aparecem em vários estudos, mas não estão validados para decisão clínica. Por isso o laudo deve informar a porcentagem exata, e não apenas "positivo".
12.7O fenótipo RE-negativo / RP-positivo
Como o RP depende do RE, um tumor RE-negativo e RP-positivo é biologicamente improvável. A maioria desses resultados é atribuída a RE falso negativo ou RP falso positivo30.
Frequência do fenótipo RE− / RP+ em séries grandes
Fenótipo raro em todas as séries.
Shen et al., 201527; Dou et al., 202429; Zheng et al., 202228.
Antes de liberar um RE− / RP+
- Repetir o RE, de preferência em outro bloco ou outra amostra; a diretriz de 2010 recomenda novo teste nesse fenótipo15.
- Em um estudo com três plataformas comerciais, os casos RE− / RP+ não se repetiram de uma plataforma para outra, sugerindo artefato31.
- Nos casos confirmados e HER2-negativos, o comportamento se aproxima do dos tumores RE− / RP−, com perfil frequentemente basal28.
12.8Roteiro do laudo
Conforme a diretriz ASCO/CAP de 202016.
| RE: porcentagem de núcleos essencial | Valor numérico (por exemplo, 95%). |
| RE: intensidade média essencial | Fraca, moderada ou forte. |
| RE: interpretação essencial | Positivo, baixo positivo (1% a 10%), negativo ou não interpretável. |
| RP: porcentagem e intensidade essencial | Valor numérico; positivo se ≥ 1%. |
| Controle interno essencial | Presente e positivo, ou ausente, nos casos com 0% a 10%. |
| Escore de Allred ou escore H recomendado | Opcional, como informação complementar. |
| Clone e plataforma recomendado | Capítulo 11. |
| Dados pré-analíticos essencial | Fixador, tempo de fixação e isquemia fria (capítulo 2). |
Texto recomendado pela diretriz ASCO/CAP16, em tradução livre:
"O câncer nesta amostra tem nível baixo (1% a 10%) de expressão de RE por imuno-histoquímica. Os dados sobre o benefício global da hormonioterapia em pacientes com expressão baixa de RE são limitados, mas sugerem possível benefício; por isso essas pacientes são consideradas elegíveis para tratamento endócrino. Há dados que sugerem que carcinomas invasivos com esse resultado são heterogêneos em comportamento e biologia e frequentemente têm perfis de expressão gênica mais semelhantes aos dos tumores RE-negativos."
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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 12.
