19.1Panorama mutacional
Poucos genes frequentes, muitos raros
Três arquétipos genômicos
Em 1.828 tumores, do pré-invasivo à metástase: RE+ de alto risco (os grupos IntClust de recidiva tardia, capítulo 10) e HER2+ com amplificações focais complexas, inclusive DNA extracromossômico, já presentes em lesões pré-invasivas; triplo-negativos com instabilidade genômica difusa, duplicações em tandem e assinaturas de deficiência de recombinação homóloga; RE+ de risco habitual, geneticamente estáveis5.
19.2BRCA e deficiência de recombinação homóloga
Biologia
- BRCA1 participa da sinalização do dano e do reparo por recombinação homóloga e outras vias; BRCA2 regula RAD51, necessário à recombinação homóloga6.
- Células sem BRCA1 ou BRCA2 funcionais são muito sensíveis à inibição de PARP: letalidade sintética7.
- Três assinaturas de rearranjo (duplicações em tandem ou deleções) associam-se à deficiência de recombinação homóloga3.
19.3PIK3CA e a via PI3K/AKT
Frequência de mutação de PIK3CA por subtipo
Análise conjunta de 10.319 pacientes de 19 estudos, doença inicial.
Zardavas et al., 20188.
Prognóstico na doença inicial
Mutação de PIK3CA associou-se a RE positivo, idade maior, grau menor e tumor menor, e a melhor sobrevida livre de doença invasiva na análise univariada (HR 0,77)8.
Alvo na doença metastática
No SOLAR-1, o alpelisibe com fulvestranto quase dobrou a sobrevida livre de progressão nos tumores PIK3CA mutados (HR 0,65), sem benefício claro nos não mutados (HR 0,85)9.
SOLAR-1: sobrevida livre de progressão
Mediana em meses, tumores RE+/HER2− avançados com PIK3CA mutado.
André et al., 20199.
19.4ESR1 e resistência endócrina
Mutações do domínio de ligação do ligante do ESR1 (Y537S, Y537N, D538G) mantêm o receptor em conformação ativa sem estrógeno e reduzem a eficácia dos antagonistas10. Surgem sob pressão do tratamento, por expansão de clones raros, e são em geral indetectáveis no tumor primário12,15.
A frequência de mutação de ESR1 depende do tratamento prévio
Porcentagem de pacientes com mutação, em tecido ou DNA tumoral circulante.
Espectro
Recomendação ASCO 2023
- Testar rotineiramente o ESR1 na recidiva ou progressão sob hormonioterapia, em RE+/HER2− metastático15.
- Usar sangue ou tecido obtido na progressão; o DNA tumoral circulante é preferido pela maior sensibilidade15.
- Se ainda não feito, testar também PIK3CA; repetir o ESR1 em progressões seguintes se negativo15.
Elacestranto (EMERALD): benefício maior com ESR1 mutado
Razão de riscos para progressão ou morte, elacestranto vs. hormonioterapia padrão.
Bidard et al., 202214.
Outros mecanismos de resistência incluem a ativação de receptores de fatores de crescimento, que ativa o RE sem ligante, alterações de correguladores e do microambiente; por isso, recomenda-se biopsiar as recidivas16,17.
19.5Biópsia líquida
O que é
Análise de células tumorais circulantes ou de DNA tumoral circulante (ctDNA) no sangue, com aplicações em prognóstico, monitorização do tratamento e detecção de alvos e de mecanismos de resistência18.
Recomendações da ESMO
- Na doença avançada, ensaios validados de ctDNA podem ser usados na rotina para identificar mutações acionáveis19.
- O tecido continua preferido para fusões e alterações de número de cópias19.
- Resultado de ctDNA não informativo deve levar a teste em tecido, pelo risco de falso-negativo19.
- Doença residual molecular tem validade clínica, mas ainda não utilidade comprovada para guiar tratamento19.
19.6Alvos na doença metastática
| Alteração | Material | Terapia |
|---|---|---|
| BRCA1/2 germinativo | Sangue | Inibidores de PARP21 |
| PIK3CA | Tecido ou ctDNA | Alpelisibe com fulvestranto9 |
| ESR1 | ctDNA preferido, na progressão | Elacestranto14 |
| HER2-baixo e ultrabaixo (IHC) | Tecido; preferir a amostra mais recente | Trastuzumabe deruxtecana22,23 |
| TMB alta / deficiência de MMR | Tecido | Imunoterapia (indicação agnóstica); TMB alta em 5% dos tumores24 |
HER2-baixo: imuno-histoquímica como teste preditivo
Medianas em meses com trastuzumabe deruxtecana vs. quimioterapia (SLP: sobrevida livre de progressão; SG: sobrevida global).
Modi et al., 202222; Bardia et al., 202423. Detalhes do escore no capítulo 13.
Por que rebiopsiar a metástase
Na comparação de pares primário-metástase, o subtipo intrínseco mudou em 36% dos casos; as metástases tinham novas alterações condutoras, menor escore imune e, nos RE+/HER2−, a TMB alta associou-se a recidiva mais precoce20. Retestar RE, RP e HER2 na metástase e enviar o material mais recente para testes moleculares.
19.7Roteiro do laudo
Baseado nas recomendações da ESMO para ctDNA19 e da ASCO para ESR115.
| Material enviado essencial | Bloco, sítio (primário ou metástase), data da coleta e tratamento prévio. |
| Fração de células tumorais essencial | Estimativa na área marcada; necessidade de macrodissecção. |
| Adequação pré-analítica essencial | Fixação em formalina tamponada; evitar descalcificação ácida. |
| Genes e método essencial | Painel, técnica (PCR, NGS) e limite de detecção. |
| Resultado essencial | Variantes com nomenclatura HGVS, frequência alélica e classificação de acionabilidade. |
| Limitações recomendado | Resultado negativo com baixa fração tumoral; em ctDNA, sugerir teste em tecido se não informativo. |
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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 19.
