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Manual de patologia mamáriaRoteiros para formulação de laudos

Parte II · Lesões e diagnóstico morfológico · Capítulo 4

Lesões precursoras e modelos de progressão

Hiperplasias, lesões de células colunares e carcinoma ductal in situ formam um contínuo morfológico e molecular. Entender esse contínuo explica por que o grau do carcinoma in situ importa, por que a imuno-histoquímica separa a hiperplasia usual da atípica e por que existem duas famílias de câncer de mama.

4.1Lesões de células colunares

As lesões de células colunares são unidades ductolobulares dilatadas, revestidas por células colunares, frequentemente com secreção e calcificações; por isso são comuns em biópsias dirigidas por microcalcificações. Formam um espectro: alteração de células colunares (uma ou duas camadas), hiperplasia de células colunares (estratificação) e, quando há atipia citológica de baixo grau sem arquitetura complexa, atipia epitelial plana3,1.

Ácinos dilatados revestidos por células colunares.
Figura 4.1 Alteração de células colunares: ácinos dilatados revestidos por uma ou duas camadas de células colunares com secreção apical. HE. Acervo do autor.
Ácinos com células colunares e calcificações.
Figura 4.2 Alteração de células colunares com secreção e calcificações intraluminais, achado frequente em biópsias por microcalcificações. HE. Acervo do autor.
Ducto com estratificação de células colunares e projeções.
Figura 4.3 Hiperplasia de células colunares: estratificação do epitélio colunar, com núcleos alongados (detalhe). HE. Acervo do autor.
Ácino revestido por células cuboides monótonas com atipia leve.
Figura 4.4 Atipia epitelial plana: células monótonas, arredondadas, com atipia citológica de baixo grau, sem arquitetura complexa. HE. Acervo do autor.

Perfil imuno-histoquímico das lesões colunares

Na série de Simpson, as lesões de células colunares foram RE e RP positivas e CK5/6 e CK14 negativas, com poucas alterações genéticas e perda recorrente de 16q, semelhantes às do carcinoma in situ e invasivo de baixo grau1.

4.2Hiperplasia usual e hiperplasia atípica

A distinção entre hiperplasia ductal usual e hiperplasia ductal atípica é das mais frequentes na prática. Na usual, a população é heterogênea; na atípica, é monótona e semelhante à do carcinoma in situ de baixo grau, mas com extensão limitada3.

Ducto preenchido por proliferação heterogênea com luzes periféricas irregulares.
Figura 4.5 Hiperplasia ductal usual: população heterogênea, núcleos sobrepostos e de orientação variável, luzes secundárias irregulares e periféricas. HE. Acervo do autor.
Proliferação monótona com luzes secundárias rígidas.
Figura 4.6 Hiperplasia ductal atípica: população monótona com luzes secundárias rígidas, sem preencher totalmente os espaços envolvidos. HE. Acervo do autor.
CaracterísticaHiperplasia ductal usualHiperplasia ductal atípica / CDIS de baixo grau
População celularHeterogênea (luminais, mioepiteliais, metaplasia apócrina)Monótona, uma só população
NúcleosSobrepostos, orientação variável, sulcosRedondos, regulares, equidistantes
Luzes secundáriasIrregulares, em fenda, periféricasRígidas, redondas, "perfuradas"
CK5/6, CK14Mosaico (células positivas e negativas misturadas)Negativas nas células proliferadas
REHeterogêneoDifuso e forte
ClonalidadeNão clonal na maioriaClonal1

Limite entre atípica e in situ

A diferença entre hiperplasia ductal atípica e carcinoma ductal in situ de baixo grau é de extensão, não de qualidade celular: os critérios usuais são envolvimento completo de pelo menos dois espaços ou extensão acima de 2 mm3. Em biópsias por agulha, a lesão atípica pode ser a borda de um carcinoma maior: na série de Tamaki, 41% dos carcinomas in situ da biópsia tinham invasão na peça (capítulo 2)6.

4.3Carcinoma ductal in situ

O carcinoma ductal in situ é uma proliferação neoplásica restrita ao sistema ductolobular, com camada mioepitelial preservada. É classificado pelo grau nuclear (baixo, intermediário, alto), pela presença de necrose (comedo ou puntiforme) e pelo padrão arquitetural2.

Ductos preenchidos por proliferação sólida.
Figura 4.7 Carcinoma ductal in situ, padrão sólido. HE. Acervo do autor.
Ducto com necrose central extensa.
Figura 4.8 Carcinoma ductal in situ com necrose central do tipo comedo. HE. Acervo do autor.
Ductos com luzes secundárias perfuradas e regulares.
Figura 4.9 Carcinoma ductal in situ, padrão cribriforme: luzes secundárias regulares, "perfuradas", em população monótona. HE. Acervo do autor.
Projeções micropapilares sem eixo fibrovascular.
Figura 4.10 Carcinoma ductal in situ, padrão micropapilar: projeções sem eixo fibrovascular. HE. Acervo do autor.
Grau nuclearNúcleosNecrosePerfil habitual
BaixoPequenos, monótonos, 1,5 a 2 vezes uma hemácia, nucléolos inconspícuosRaraRE+, HER2−, padrões cribriforme e micropapilar
IntermediárioIntermediário entre baixo e altoPode haverVariável
AltoGrandes (> 2,5 hemácias), pleomórficos, nucléolos evidentes, mitosesFrequente (comedo)Frequentemente RE− ou HER2+; padrões sólido e comedo

Doença de Paget do mamilo

Quando o carcinoma in situ alcança a epiderme do mamilo, a lesão é a doença de Paget; a maioria é de alto grau nuclear e fortemente HER2-positiva2.

4.4Duas vias de progressão

O modelo tradicional, linear, ia do epitélio normal à hiperplasia usual, à hiperplasia atípica, ao carcinoma in situ e ao invasivo. Os estudos genéticos mostraram outra coisa: as lesões se organizam em duas famílias distintas, de baixo e de alto grau, que raramente se convertem uma na outra1.

Número médio de alterações cromossômicas por tipo de lesão

Hibridização genômica comparativa em 81 lesões de 18 pacientes. O número de alterações cresce com a atipia e com a progressão.

01357Epitélio normal0,40Hiperplasia usual0,25Alteração de células colunares1,90Hiperplasia de células colunares2,80Células colunares com atipia arquitetural e citológica4,40Atipia epitelial plana1,60Hiperplasia lobular atípica3,50Carcinoma ductal in situ4,40Carcinoma invasivo6,00

Adaptado de Simpson et al., 20051, tabela 3.

AlteraçãoVia de baixo grauVia de alto grau
Perda de 16qSimSim (< 30%)
Ganho de 1qSimSim (60%)
Ganho de 8qNãoSim (75%)
Ganhos de 17q e 20qNãoSim
Perdas de 1p, 8p, 13qNãoSim

Síntese apresentada na aula do autor (2014), a partir da literatura de genética das lesões precursoras1.

Via de baixo grau

  • Lesões de células colunares, atipia epitelial plana, hiperplasia atípica, CDIS de baixo grau, neoplasia lobular.
  • Carcinomas invasivos de baixo grau: tubular, cribriforme, lobular clássico, ductal grau 1.
  • RE+, baixa proliferação, perfil luminal, bom prognóstico.

Via de alto grau

  • CDIS de alto grau, frequentemente sem precursora identificável.
  • Carcinomas invasivos grau 3, HER2-positivos ou basais.
  • RE−, alta proliferação, mais alterações genéticas, pior prognóstico.

Conclusões dos estudos genéticos (aula do autor)

  • A hiperplasia ductal usual tem poucas alterações e, na maioria, não é precursora direta.
  • A hiperplasia ductal atípica tem semelhanças genéticas com o CDIS de baixo grau.
  • A hiperplasia atípica e o CDIS de qualquer grau são proliferações clonais.
  • CDIS de baixo e de alto grau são neoplasias distintas que evoluem para formas diferentes de câncer invasivo1.
  • Os subtipos moleculares (luminal, HER2, basal) já estão presentes na fase in situ4.

4.5Roteiro do laudo

Dados para laudo anatomopatológico · Carcinoma ductal in situ

Elementos essenciais e recomendados do conjunto de dados ICCR para CDIS2.

Procedimento e lateralidade essencialComo no capítulo 2.
Localização essencialQuadrante ou posição horária.
Extensão do CDIS essencialMaior dimensão, por correlação macroscópica, microscópica e de imagem.
Grau nuclear essencialBaixo, intermediário ou alto.
Necrose essencialAusente, puntiforme ou comedo.
Padrão arquitetural recomendadoSólido, cribriforme, micropapilar, papilífero, plano.
Margens essencialComprometida ou livre; distância da mais próxima se menor que 5 mm; extensão do comprometimento. Margem adequada: ≥ 2 mm5.
Local de biópsia prévia essencialIdentificado e amostrado.
Microcalcificações essencialPresentes no CDIS, no tecido benigno ou em ambos.
Receptor de estrógeno essencialRP é opcional.
Estadiamento essencialpTis (DCIS).

Referências

  1. Simpson PT, Gale T, Reis-Filho JS, Jones C, Parry S, Sloane JP, et al. Columnar cell lesions of the breast: the missing link in breast cancer progression? A morphological and molecular analysis. Am J Surg Pathol. 2005;29(6):734-46. doi:10.1097/01.pas.0000157295.93914.3b
  2. Fox SB, Webster F, Chen CJ, Chua B, Collins L, Foschini MP, et al. Dataset for pathology reporting of ductal carcinoma in situ, variants of lobular carcinoma in situ and low-grade lesions: recommendations from the International Collaboration on Cancer Reporting (ICCR). Histopathology. 2022;81(4):467-76. doi:10.1111/his.14725
  3. WHO Classification of Tumours Editorial Board. Breast tumours. 6th ed. Lyon (France): International Agency for Research on Cancer; 2025. (WHO classification of tumours series).
  4. Yu K, Lee CH, Tan PH, Tan P. Conservation of breast cancer molecular subtypes and transcriptional patterns of tumor progression across distinct ethnic populations. Clin Cancer Res. 2004;10(16):5508-17. doi:10.1158/1078-0432.CCR-04-0085
  5. Morrow M, Van Zee KJ, Solin LJ, Houssami N, Chavez-MacGregor M, Harris JR, et al. Society of Surgical Oncology-American Society for Radiation Oncology-American Society of Clinical Oncology consensus guideline on margins for breast-conserving surgery with whole-breast irradiation in ductal carcinoma in situ. J Clin Oncol. 2016;34(33):4040-6. doi:10.1200/JCO.2016.68.3573
  6. Tamaki K, Sasano H, Ishida T, Miyashita M, Takeda M, Amari M, et al. Comparison of core needle biopsy (CNB) and surgical specimens for accurate preoperative evaluation of ER, PgR and HER2 status of breast cancer patients. Cancer Sci. 2010;101(9):2074-9. doi:10.1111/j.1349-7006.2010.01630.x

Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 4. Fotomicrografias: acervo do autor.