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Manual de patologia mamáriaRoteiros para formulação de laudos

Parte I · Fundamentos e macroscopia · Capítulo 1

A glândula mamária normal

Quase toda a patologia mamária nasce da unidade ductolobular terminal, e quase todo diagnóstico diferencial depende de saber se a camada de células mioepiteliais está preservada. Este capítulo resume a arquitetura normal e o perfil imuno-histoquímico que serve de referência para os demais.

1.1Arquitetura: ductos e lóbulos

A mama adulta é formada por 15 a 20 sistemas ductais que convergem para o mamilo. Cada sistema se ramifica em ductos progressivamente menores até o ducto terminal, que termina no lóbulo, um conjunto de dúctulos (ácinos) envoltos por estroma frouxo e especializado. O conjunto ducto terminal + lóbulo é a unidade ductolobular terminal, local de origem da maioria das hiperplasias, dos carcinomas in situ e dos carcinomas invasivos, sejam eles chamados "ductais" ou "lobulares"1.

Lóbulo mamário com ácinos e estroma intralobular.
Figura 1.1 Glândula mamária: dúctulos (ácinos) de um lóbulo e estroma intralobular frouxo, separado do estroma interlobular denso. HE. Acervo do autor.
Pequeno aumento de lóbulos e ducto em meio ao estroma fibroso e adiposo.
Figura 1.2 Pequeno aumento: lóbulos (unidades ductolobulares terminais) e ducto terminal em meio a estroma fibroadiposo. HE. Acervo do autor.
Ducto revestido por camada luminal colunar e camada basal de células mioepiteliais.
Figura 1.3 Ducto com as duas camadas epiteliais: células luminais voltadas para a luz e células mioepiteliais na base, junto à membrana basal. HE. Acervo do autor.

1.2As duas camadas epiteliais

Células luminais

  • Revestem a luz de ductos e dúctulos.
  • Expressam citoqueratinas de baixo peso molecular (CK7, CK8/18) e E-caderina na membrana5.
  • Uma fração heterogênea expressa RE e RP; essa mistura de células positivas e negativas é o controle interno dos testes de receptores4,8.

Células mioepiteliais

  • Ficam entre as células luminais e a membrana basal; são contráteis.
  • Expressam p63 (núcleo), calponina, cadeia pesada da miosina de músculo liso (SMMHC), actina de músculo liso e citoqueratinas basais (CK5/6, CK14, CK17)3,2.
  • Sua presença ao redor de uma proliferação indica, em princípio, lesão benigna ou in situ.

Membrana basal e estroma

A membrana basal (colágeno IV, laminina) envolve ductos e ácinos; pode ser demonstrada por imuno-histoquímica ou pela coloração de reticulina, útil por exemplo na adenose microglandular, que tem membrana basal mas não tem células mioepiteliais6. O estroma intralobular é frouxo e hormônio-responsivo; o interlobular é denso e contém tecido adiposo.

1.3Perfil imuno-histoquímico normal

MarcadorCélulas luminaisCélulas mioepiteliaisUso diagnóstico
CK7, CK8/18PositivasNegativas ou fracasFenótipo luminal; origem mamária em metástases (com outros marcadores)
CK5/6, CK14Mosaico (células progenitoras)PositivasHiperplasia usual versus atípica; fenótipo basal (capítulos 4 e 15)2
p63NegativaPositiva (nuclear)Camada mioepitelial íntegra ou ausente (capítulo 7)3
Calponina, SMMHCNegativasPositivasIdem; mais específicas que a actina, que também marca miofibroblastos e vasos
RE, RPHeterogêneosNegativosControle interno dos testes de receptores4
E-caderinaMembranaMembranaPerdida na neoplasia lobular (capítulo 5)5

1.4Por que o normal importa no diagnóstico

Três usos práticos do tecido normal

  • Controle interno: o epitélio normal no mesmo corte confirma que RE e RP funcionaram; incluí-lo no cassete é recomendação do consenso de 20088.
  • Referência de intensidade: a marcação de membrana de HER2 em ductos normais deve ser fraca ou ausente; marcação forte de membrana nos ductos normais é motivo para rejeitar o teste7.
  • Camada mioepitelial: ao avaliar invasão, comparar com ductos normais vizinhos evita interpretar como "ausência" uma marcação apenas fraca ou descontínua.

Referências

  1. WHO Classification of Tumours Editorial Board. Breast tumours. 6th ed. Lyon (France): International Agency for Research on Cancer; 2025. (WHO classification of tumours series).
  2. Lerma E, Barnadas A, Prat J. Triple negative breast carcinomas: similarities and differences with basal like carcinomas. Appl Immunohistochem Mol Morphol. 2009;17(6):483-94. doi:10.1097/PAI.0b013e3181a725eb
  3. Rakha EA, Gandhi N, Climent F, van Deurzen CH, Haider SA, Dunk L, et al. Encapsulated papillary carcinoma of the breast: an invasive tumor with excellent prognosis. Am J Surg Pathol. 2011;35(8):1093-103. doi:10.1097/PAS.0b013e31821b3f65
  4. Allison KH, Hammond MEH, Dowsett M, McKernin SE, Carey LA, Fitzgibbons PL, et al. Estrogen and progesterone receptor testing in breast cancer: American Society of Clinical Oncology/College of American Pathologists guideline update. Arch Pathol Lab Med. 2020;144(5):545-63. doi:10.5858/arpa.2019-0904-SA
  5. Dabbs DJ, Schnitt SJ, Geyer FC, Weigelt B, Baehner FL, Decker T, et al. Lobular neoplasia of the breast revisited with emphasis on the role of E-cadherin immunohistochemistry. Am J Surg Pathol. 2013;37(7):e1-11. doi:10.1097/PAS.0b013e3182918a2b
  6. Shin SJ, Simpson PT, Da Silva L, Jayanthan J, Reid L, Lakhani SR, et al. Molecular evidence for progression of microglandular adenosis (MGA) to invasive carcinoma. Am J Surg Pathol. 2009;33(4):496-504. doi:10.1097/PAS.0b013e31818af361
  7. Wolff AC, Hammond ME, Hicks DG, Dowsett M, McShane LM, Allison KH, et al. Recommendations for human epidermal growth factor receptor 2 testing in breast cancer: American Society of Clinical Oncology/College of American Pathologists clinical practice guideline update. Arch Pathol Lab Med. 2014;138(2):241-56. doi:10.5858/arpa.2013-0953-SA
  8. Yaziji H, Taylor CR, Goldstein NS, Dabbs DJ, Hammond EH, Hewlett B, et al. Consensus recommendations on estrogen receptor testing in breast cancer by immunohistochemistry. Appl Immunohistochem Mol Morphol. 2008;16(6):513-20. doi:10.1097/PAI.0b013e31818a9d3a

Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 1. Fotomicrografias: acervo do autor.