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Manual de patologia mamáriaRoteiros para formulação de laudos

Parte IV · Classificação molecular e biomarcadores · Capítulo 15

Carcinoma triplo-negativo e basal

Triplo-negativo é uma definição operacional, baseada em três marcadores negativos; basal-like é uma categoria de expressão gênica. Os dois se sobrepõem em grande parte, mas o grupo triplo-negativo inclui de carcinomas agressivos de alto grau a tumores de tipo especial com comportamento indolente, e é o laudo que os separa.

~85%
dos carcinomas RE−/HER2− são basal-like por expressão gênica1
HR 2,0
para morte no triplo-negativo comparado aos demais, mesmo dentro do mesmo estádio II6
80%
dos basal-like têm mutação de TP53, majoritariamente truncante12

15.1Triplo-negativo e basal-like: termos diferentes

Triplo-negativo

  • Definição imuno-histoquímica: RE < 1%, RP < 1% e HER2 negativo pelas diretrizes ASCO/CAP13.
  • Termo operacional, útil para decisão terapêutica, que reúne entidades diferentes8.
  • Inclui basal-like, mas também normal-like, tumores com receptor de androgênio e tipos especiais de baixo grau1,8.

Basal-like

  • Definição por expressão gênica (PAM50 ou genes intrínsecos).
  • Aproximação imuno-histoquímica de Nielsen: RE−, HER2−, CK5/6+ e/ou EGFR+, com sensibilidade de 76% e especificidade de 100%4.
  • CK5 parece o melhor marcador isolado; CK14, CK17 e EGFR também ajudam3.

Sobreposição entre triplo-negativo e basal-like

Proporções em estudos de expressão gênica e imuno-histoquímica.

0%25%50%75%100%RE−/HER2− que são basal-like85%Concordância triplo-negativo × basal80%Sensibilidade do painel imuno-histoquímico76%Especificidade do painel imuno-histoquímico100%

Rakha et al., 20081; Lerma et al., 20093; Nielsen et al., 20044.

Equiparar os dois grupos pode enganar

Triplo-negativos e basal-like compartilham muitas características moleculares e morfológicas, mas não são a mesma coisa2. Cerca de 1 em cada 5 casos é discordante: há basal-like que expressam RE ou HER2 em níveis baixos, e triplo-negativos que não são basal-like3,1.

15.2Morfologia e imunofenótipo

Morfologia do carcinoma basal-like

23 tumores basal-like definidos por microarranjo.

0%25%50%75%100%Grau 3 (ductal/NOS) ou metaplásico100,0%Necrose geográfica73,9%Borda expansiva (“pushing”)60,9%Infiltrado linfocitário estromal56,5%

Livasy et al., 20065.

Imunofenótipo do carcinoma basal-like

18 tumores basal-like; todos RE− e HER2−.

0%25%50%75%100%Vimentina94,4%CK8/1883,3%EGFR72,2%CK5/661,1%Actina de músculo liso22,2%p6322,2%CD1011,1%

Livasy et al., 20065.

Na lâmina

  • Mitoses muito numerosas, necrose central geográfica, borda expansiva e infiltrado linfocitário são os achados mais associados ao basal-like5.
  • Marcadores mioepiteliais (actina, p63, CD10) são pouco frequentes, ao contrário das queratinas basais e da vimentina5.
  • Carcinomas metaplásicos e medulares (atualmente tipo não especial com padrão medular) concentram-se neste grupo (capítulo 6)15.
  • Associação com mutação germinativa de BRCA11.

15.3Prognóstico

Triplo-negativo tem pior sobrevida em todos os estádios

Razão de riscos para sobrevida global, triplo-negativo vs. demais, ajustada para idade, raça, grau, cirurgia e radioterapia.

00,511,522,533,5Estádio I1,79 (1,52–2,11)Estádio II2,02 (1,81–2,26)Estádio III2,74 (2,45–3,07)Estádio IV2,41 (2,18–2,67)

Li et al., 20176; 158.358 pacientes do SEER, validado em 2.049 pacientes de uma instituição.

Queratinas basais e EGFR

Expressão de queratinas basais e de EGFR associou-se a menor sobrevida específica em 930 pacientes com 17,4 anos de seguimento médio4.

Fatores a relatar

Tamanho, linfonodos e tipo histológico mantêm valor. Os TILs são o principal fator prognóstico adicional no triplo-negativo e são tratados no capítulo 16. A resposta à neoadjuvância (pCR, RCB) é especialmente informativa neste grupo (capítulo 18).

15.4Subtipos moleculares de Lehmann

A análise de 587 triplo-negativos de 21 bases de dados identificou seis subtipos estáveis e um grupo instável, cada um com vias biológicas e sensibilidade a fármacos diferentes em linhagens celulares7.

SubtipoBiologia dominanteSensibilidade em modelos
Basal-like 1 (BL1)Ciclo celular, resposta a dano de DNACisplatina
Basal-like 2 (BL2)Fatores de crescimento, glicóliseCisplatina
Imunomodulador (IM)Genes de células imunes e de sinalização imune—
Mesenquimal (M)Transição epitélio-mesênquima, motilidadeInibidor de PI3K/mTOR, dasatinibe
Mesenquimal stem-like (MSL)Como M, com baixa proliferaçãoInibidor de PI3K/mTOR, dasatinibe
Luminal com receptor de androgênio (LAR)Sinalização de receptor de androgênioBicalutamida (antiandrogênio)

Lehmann et al., 20117. Na prática, o subtipo IM reflete genes de células imunes e o LAR corresponde à expressão de receptor de androgênio; a classificação completa não é feita na rotina.

15.5Triplo-negativos de baixo grau

Dois grupos de lesões triplo-negativas de baixo grau têm comportamento indolente: a família de neoplasias triplo-negativas de baixo grau, com a genômica complexa do triplo-negativo usual, e os tumores de tipo glândula salivar, sem as alterações moleculares do triplo-negativo convencional e definidos por fusões ou mutações específicas8. Muitas dessas pacientes não se beneficiam de quimioterapia sistêmica9.

EntidadePistas morfológicas e imuno-histoquímicasAlteração molecular
Carcinoma adenoide cístico clássicoPadrão cribriforme, tubular e sólido; dupla população; CD117 e MYB difusos (65–100%)MYB-NFIB, rearranjo de MYBL1 ou amplificação de MYB10
Carcinoma secretorCrescimento microcístico, secreção eosinofílica, citoplasma granular ou vacuoladoETV6-NTRK310
Carcinoma de células altas com polaridade invertidaNúcleos afastados da membrana basal, padrão papilífero sólidoMutação hotspot de IDH2 e PIK3CA10
Carcinoma mucoepidermoide de baixo grauCélulas mucosas, intermediárias e epidermoidesCRTC1-MAML2 nos poucos casos estudados9
Carcinoma de células acinaresGrânulos zimogênicos, lisozima e amilaseSem perfil específico; semelhante ao triplo-negativo10
Carcinoma adenoescamoso de baixo grauGlândulas e ninhos escamosos em estroma desmoplásico—
Carcinoma metaplásico tipo fibromatoseCélulas fusiformes brandas; queratinas e p63 focais—
Adenomioepitelioma RE−Dupla população epitelial e mioepitelialHRAS Q61 e genes da via PI3K10

Na prática

Antes de liberar um “carcinoma triplo-negativo de alto risco”, confirmar o grau e excluir um tipo especial de baixo grau. O MYB, o NTRK pan (para ETV6-NTRK3) e o teste de IDH2 ajudam na confirmação. Tipos puros e de baixo grau devem ser nomeados no laudo, porque mudam a indicação de quimioterapia9,10.

15.6Receptor de androgênio e RE baixo

Receptor de androgênio

  • Expresso em 20–50% dos triplo-negativos11.
  • Marca o subtipo LAR e o carcinoma com diferenciação apócrina7.
  • Alvo de terapias antiandrogênicas em estudo; não há ponto de corte padronizado para a imuno-histoquímica11.

RE baixo positivo (1–10%)

  • Relatar como “RE baixo positivo”, com comentário, e não como negativo13.
  • Responde à quimioterapia e tem prognóstico semelhantes aos dos RE-negativos14.
  • Muitos são basal-like por expressão gênica (capítulo 12).

15.7Roteiro do laudo

Dados para laudo anatomopatológico · Carcinoma triplo-negativo

Baseado nas diretrizes ASCO/CAP13, na OMS15 e no grupo europeu de patologia mamária9.

Tipo histológico essencialNomear tipos especiais (adenoide cístico, secretor, células altas, metaplásico) e o padrão medular.
Grau de Nottingham essencialSepara os triplo-negativos de baixo grau do grupo usual.
RE e RP essencialPorcentagem; RE 1–10% relatado como baixo positivo, com comentário.
HER2 essencialEscore 0, 1+, 2+; distinguir 0 de 1+ (HER2-baixo) e ultrabaixo. Capítulo 13.
TILs estromais recomendadoPorcentagem pelo método do grupo internacional. Capítulo 16.
PD-L1 quando solicitadoClone e escore validados para o fármaco. Capítulo 16.
Marcadores basais (CK5/6, EGFR) opcionalNão são necessários para a definição de triplo-negativo.
Receptor de androgênio opcionalPorcentagem; sem ponto de corte padronizado.
Testes moleculares de tipo especial quando indicadoMYB, NTRK, IDH2, conforme a morfologia.

Referências

  1. Rakha EA, Reis-Filho JS, Ellis IO. Basal-like breast cancer: a critical review. J Clin Oncol. 2008;26(15):2568-81. doi:10.1200/JCO.2007.13.1748
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  8. Geyer FC, Pareja F, Weigelt B, Rakha E, Ellis IO, Schnitt SJ, et al. The spectrum of triple-negative breast disease: high- and low-grade lesions. Am J Pathol. 2017;187(10):2139-51. doi:10.1016/j.ajpath.2017.03.016
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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 15.