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Manual de patologia mamáriaRoteiros para formulação de laudos

Parte III · Fatores prognósticos e linfonodos · Capítulo 8

Fatores prognósticos anatomopatológicos

Tamanho, linfonodos e grau histológico continuam sendo os três fatores prognósticos mais fortes do carcinoma invasivo operável. Este capítulo mostra como medi-los com precisão, o peso de cada um e como a 8ª edição do AJCC passou a combiná-los com os biomarcadores.

8.1Estadiamento TNM: anatômico e prognóstico

A 8ª edição do AJCC manteve o estadiamento anatômico (T, N, M) e criou o estadiamento prognóstico, que acrescenta grau histológico, RE, RP, HER2 e, quando disponível, o resultado de testes multigênicos1,2. O estádio anatômico é o padrão onde os biomarcadores não estão disponíveis; o prognóstico é usado nos demais casos e costuma ser atribuído pela equipe clínica depois de todos os exames2,14.

Categoria pTCritério
pTisCarcinoma in situ (CDIS) ou doença de Paget sem carcinoma invasivo
pT1miMicroinvasão: maior foco ≤ 1 mm
pT1a / pT1b / pT1c> 1 a 5 mm / > 5 a 10 mm / > 10 a 20 mm
pT2> 20 a 50 mm
pT3> 50 mm
pT4a / pT4b / pT4cParede torácica (não apenas músculo peitoral) / ulceração, nódulos satélites ou edema de pele / ambos
pT4dCarcinoma inflamatório (diagnóstico clínico)

Biologia que muda o estádio

  • O grau, RE, RP e HER2 podem subir ou descer o estádio prognóstico em relação ao anatômico2.
  • Tumores RE-positivos, HER2-negativos e linfonodo-negativos com Recurrence Score (Oncotype DX) abaixo de 11, de qualquer tamanho T, passam para o estádio prognóstico I, como os T1a–b N02.
  • O mesmo vale para o resultado de baixo risco do MammaPrint2.

O estádio no diagnóstico continua sendo o maior determinante da sobrevida em estudos populacionais3. As categorias pN são detalhadas no capítulo 9; os prefixos "y" (após neoadjuvância) e "m" (múltiplos focos), no capítulo 18.

8.2Tamanho do tumor

O que medir

  • O tamanho do componente invasivo, ao milímetro, define o pT12.
  • O tamanho histológico é o padrão-ouro, correlacionado com o macroscópico e o radiológico12.
  • Tumores pequenos (< 5 mm) são mais bem medidos em uma única lâmina.
  • Em tumores multifocais, o pT é dado pelo maior foco, com o sufixo (m).

Armadilhas

  • Não somar focos separados nem incluir o carcinoma in situ adjacente no tamanho invasivo.
  • O tamanho total (invasivo + CDIS) é elemento recomendado, útil para correlação com a imagem12.
  • Após biópsia por agulha, o foco invasivo pode estar parcialmente removido; considerar o tamanho na biópsia e na imagem.

8.3Grau histológico de Nottingham

O sistema de Nottingham (modificação de Elston e Ellis do método de Bloom e Richardson) avalia três características, cada uma pontuada de 1 a 3: formação de túbulos, pleomorfismo nuclear e contagem de mitoses. A soma (3 a 9) define o grau4.

Característica1 ponto2 pontos3 pontos
Formação de túbulos> 75% do tumor10% a 75%< 10%
Pleomorfismo nuclearNúcleos pequenos, regulares, até 1,5 vez o normal1,5 a 2 vezes, variação moderada, nucléolos visíveis> 2 vezes, variação acentuada, cromatina vesicular, nucléolos proeminentes
Mitoses (por 2 mm²)≤ 78 a 14≥ 15
3–5
pontos: grau 1, bem diferenciado4
6–7
pontos: grau 2, moderadamente diferenciado4
8–9
pontos: grau 3, pouco diferenciado4

Distribuição dos graus em duas grandes séries de Nottingham

A proporção se manteve praticamente idêntica entre 1991 e 2008, um indicador de reprodutibilidade.

Grau 1Grau 2Grau 3
0%25%50%75%100%Rakha 2008 (2.219 casos)18,6%35,6%45,8%Elston e Ellis 1991 (1.830)19%34%47%

Elston e Ellis, 19914; Rakha et al., 20085.

Peso de cada fator na sobrevida específica (análise multivariada)

2.219 carcinomas operáveis, seguimento mediano de 111 meses. Razão de riscos; 1 = referência.

01234Grau 1 (referência)1,0Grau 21,6Grau 33,9Linfonodo, por categoria1,8Invasão vascular1,6Tamanho > 2 cm1,4

Adaptado de Rakha et al., 20085, tabela 2.

O grau acrescenta informação aos linfonodos

Na série de Rakha, tumores grau 3 sem metástase linfonodal tiveram evolução pior que tumores grau 1 ou 2 com 1 a 3 linfonodos positivos5. O grau resume biologia que os perfis gênicos também capturam, sobretudo a proliferação, e por isso foi incorporado ao estadiamento prognóstico6,2.

Grau na biópsia por agulha

É possível e necessário em tempos de neoadjuvância, mas tende a subestimar o grau, sobretudo pela contagem de mitoses em pouco tecido. Na série de Tamaki, a concordância do grau nuclear entre biópsia e peça foi de 81,3%11,14.

8.4Contagem de mitoses

As mitoses são contadas na área de maior atividade (em geral a periferia do tumor), em campos com celularidade tumoral representativa, considerando apenas figuras inequívocas; núcleos picnóticos e hipercromáticos devem ser ignorados4,14. Como o diâmetro do campo de grande aumento varia entre microscópios, o ponto de corte precisa ser ajustado à área4,7.

Diâmetro do campoÁrea de 10 campos1 ponto2 pontos3 pontos
0,44 mm1,52 mm²0–56–10≥ 11
0,59 mm2,74 mm²0–910–19≥ 20
0,63 mm3,12 mm²0–1112–22≥ 23
Área padrão2 mm²≤ 78–14≥ 15

Microscópios de Elston e Ellis, 19914; área padrão de 2 mm² recomendada para lâminas físicas e digitais7,14.

Calibrar o microscópio

Meça o diâmetro do campo com a objetiva de 40× (régua micrométrica) e consulte a tabela correspondente; registre no laudo a contagem por mm² ou por 10 campos com o diâmetro do campo, como pede o ICCR12. Na patologia digital, desenhe uma área de 2 mm² no ponto quente. Ferramentas de inteligência artificial melhoram a concordância da contagem (capítulo 20)13.

8.5Invasão linfovascular

Pelos critérios de Rosen, a invasão linfovascular é o êmbolo tumoral dentro de um espaço revestido por endotélio, fora da massa tumoral principal; o êmbolo não acompanha exatamente o contorno do espaço, e áreas de retração devem ser evitadas8. Como é difícil distinguir linfáticos de vasos sanguíneos, o achado é relatado simplesmente como invasão linfovascular12.

30%
dos 3.812 carcinomas operáveis tinham invasão linfovascular definida9
HR 2,1
para morte por câncer nas pacientes linfonodo-negativas, maior que a passagem de pT1 para pT2 (HR 1,8)9

Invasão linfovascular comparada a um linfonodo positivo

Razão de riscos para sobrevida específica, 2.248 pacientes.

00,511,522,51 linfonodo positivo vs. nenhum1,4Invasão linfovascular vs. ausente1,8

Adaptado de Rakha et al., 20129, tabela 4.

Invasão linfovascular sem metástase equivale a linfonodo positivo sem invasão

Sobrevida específica em subgrupos da mesma série.

pN0 com invasão linfovascularpN1 sem invasão linfovascular
0%25%50%75%100%Sobrevida específica em 5 anos88%89%Sobrevida específica em 10 anos75%76%

Adaptado de Rakha et al., 20129, figura 2.

Extensão

Considera-se extensa a invasão vista em mais de dois blocos, embora a evidência seja limitada; a extensão orienta indicações de radioterapia14. Invasão linfovascular dérmica deve ser relatada pela associação com carcinoma inflamatório.

Imuno-histoquímica

D2-40, CD31 e ERG confirmam o revestimento endotelial (capítulo 7). Em uma série de 2.124 casos, a invasão em vasos D2-40-positivos associou-se ao estádio N e à recidiva local10.

8.6Margens e outros fatores

Margens: tumor na tinta para carcinoma invasivo e 2 mm para CDIS, com metanálise e consensos discutidos no capítulo 2. Outros elementos do laudo com valor prognóstico ou de manejo: carcinoma in situ associado (componente intraductal extenso), microcalcificações, doença de Paget, invasão de pele e de parede torácica, e linfócitos infiltrantes do tumor (capítulo 16)12.

8.7Roteiro do laudo

Dados para laudo anatomopatológico · Carcinoma invasivo: fatores anatomopatológicos

Elementos do conjunto de dados ICCR12 e do AJCC 8ª edição2.

Tipo histológico essencialCapítulo 6.
Tamanho do componente invasivo essencialMaior dimensão em mm; número e tamanho dos focos se multifocal.
Tamanho total (invasivo + in situ) recomendadoPara correlação com a imagem.
Grau de Nottingham essencialGrau final e escores de túbulos, pleomorfismo e mitoses.
Contagem de mitoses recomendadoPor mm² ou por 10 campos, com o diâmetro do campo.
Carcinoma in situ associado essencialTipo, grau, componente intraductal extenso.
Invasão linfovascular essencialAusente, presente (extensão recomendada) ou indeterminada; dérmica.
Extensão a pele, mamilo, músculo e parede torácica essencialRelevante para pT4.
Margens essencialCapítulo 2.
Estadiamento pTNM (AJCC 8ª ed.) essencialCom prefixos (y, r, m) quando aplicáveis.

Referências

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Manual de patologia mamária · Dr. Roberto Falzoni · Capítulo 8.